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sábado, 11 de fevereiro de 2012

ENSAIO Clarice Lispector: tons e matizes

Ensaio da professora, poetisa e escritora Aíla Sampaio  (clica no nome e entrará direto em seu blog sobre literatura) para o caderno LER (Cultura) do Diário do Nordeste -DN (Fortaleza) sobre a escritora Clarice Lispector.





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Clarice Lispector
Clarice Lispector possui, sem dúvida, uma extensa fortuna crítica; no entanto, não param de surgir novas -e pertinentes - reflexões sobre sua escritura
Sob o título de "Clarices: uma homenagem", surge o livro organizado pela professoras Fernanda Coutinho e Vera Moraes, pelo aniversário de 50 anos do volume Laços de família e pelos 90 que a escritora faria se estivesse viva, como o plural já sinaliza, traz Clarice Lispector em vários rostos, tons e matizes. A coletânea foi lançada em dezembro de 2011, no Centro Cultural Banco do Nordeste, no mesmo dia da abertura da exposição Clarice: Retratos, com curadoria de Fernanda Coutinho e Inês Cardoso.

Dos motivos
Não apenas os contos do livro aniversariante constituem objeto de estudo dos artigos, nem somente artigos falam da escritura de Clarice. São 540 páginas com 26 trabalhos acerca de seus contos, romances, crônicas, biografias, e duas entrevistas feitas pelas organizadoras da coletânea com pesquisadoras tutelares da obra clariceana: a brasileira Nádia Battela Gotlib, autora de Clarice fotobiografia e Clarice: uma vida que se conta; e a professora francesa, Nadiá Setti, responsável por vários estudos sobre a obra da escritora na Sorbonne.

ReleiturasDizer que os treze contos de Laços de Família já foram exaustivamente estudados no Brasil e em outros países não é nenhum modo de considerar os estudos acerca deles repetitivos, ao contrário, é uma forma de mais se admirar as suas possibilidades de interpretação que não se esgotam nunca e sempre conseguem surpreender o leitor. São 13 contos centrados, tematicamente, no processo de aprisionamento dos indivíduos através dos "laços de família"; 10 deles, notadamente, têm mulheres como protagonistas, e falam de sua prisão doméstica, de seu cotidiano, de suas formas de vida convencionais e estereotipadas. As narrativas parecem focar a classe média carioca, numa visão desencantada e descrente dos laços familiares, das convenções e dos jogos de interesses que predominam nas relações.

A abertura
O artigo que abre a coletânea Clarices, "En verdad, Clarice Lispector", de Aina Pérez Fontdevila, focaliza a escritura de Clarice, fala sobre a crítica que vincula sua criação ao feminino, assegura-lhe contornos míticos e faz a analogia escritura e corpo.

A mulher e o feminino são, inevitavelmente, as nuanças que mais se desenham em seu mundo ficcional, as matizes maiores dos seus textos. Assim, são também os leitmotivs de estudos mais constantes, como se pode ler nos artigos: "Laços de uma outra ordem - uma análise bakhtiniana do conto ´Feliz aniversário´, de Clarice Lispector", escrito por Gabriela Lírio Gurgel, que faz uma enunciação dialética entre o psíquico e o ideológico; vida interior e exterior. "Na dança de Eros e Thanatos: movimentos de vida e morte em Laços de Família", de Olga de Sá, autora do livro A escritura de Clarice Lispector, se disserta sobre a sensibilidade do universo feminino.

Escrita e feminino
Em "Mulheres, baratas e coisas afins", de Paulo Germano Barrozo de Albuquerque, levantam-se também questões ligadas ao feminino e faz-se a relação entre escrita e essência feminina nos textos dos livros Correio feminino e Só para mulheres, ambos organizados por Aparecida Nunes. Em "Inquietudes de ser mulher em Laços de Família", de Vera Moraes e Maria Elenice Costa Lima, analisam-se crônicas que focalizam a mulher e centra-se a investigação na personagem singular Pequena Flor, mostrando as relações eu versus outro e eu versus eu.

O leitor de Clarices se vê diante de um caleidoscópio de imagens e significações inesgotáveis do universo feminino, desbravando novas leituras e possibilidades de interpretação. No artigo "O verde úmido subindo em mim: a mulher e a magia do jardim em Clarice Lispector", Vera Moraes analisa a crônica "O ato gratuito", do livro A descoberta do mundo, focalizando ainda outras crônicas da mesma obra, e os contos "O Búfalo", "Amor" e "Mistérios em São Cristóvão", com apoio teórico de obras de Walter Benjamim, Maurice Merleau-Ponti e Didi-Huberman, resultando num belo estudo fenomenológico. Em "A hora perigosa da tarde nos Laços de Família: Clarice Lispector e o movimento feminista", Nilson Dias perquire a busca da identidade, debatendo os confrontos entre a mulher e seu mundo normativo, assunto reiterado praticamente em todos os enredos.

A alteridade
"Três mulheres de Pedra ou de possíveis atalhos para um rompimento de cerco - uma leitura do romance A cidade sitiada", de Gilberto Figueiredo Martins, por sua vez, enfoca as relações de alteridade na cidade, as máscaras e os disfarces sociais no universo dos personagens, citando críticos como Roberto da Matta, Regina Pontieri, Mary Del Priore, Nicolau Sevcenko e atribuindo uma dimensão documental à obra.

Elementos-chave da escrita de Clarice LispectorClarice Lispector nasceu na Ucrânia, em 1925, e morreu na cidade do Rio de Janeiro, 1977). Em seu livro de estria, Perto do coração selvagem, já revela as marcas de toda a sua criação: a presença de metáforas insólitas, o fluxo da consciência, o monólogo interior, a ruptura com o enredo factual.

A epifania
Suas personagens, mergulhadas em profunda introspecção, vivem numa atmosfera nebulosa, pois são castradas para a vida real. Mas, de quando em vez, sentindo-se sufocadas, ela explodem para a vida real, momento em que são tomadas por um tremendo mal-estar, experimentando náuseas, tonturas e ânsia de vômito. Quanto a isso, uma das mais emblemáticas cenas ocorre quando, no conto "Amor", a protagonista Ana, estando sentada num banco de bonde, depara um cego mascando chicles, e tudo se torna uma estranha sofreguidão. E, logo, um grande mal será feito, sendo, a partir de então, as coisas irremediáveis.

Tudo isso encontra harmonia numa linguagem bem trabalhada, que toca o poético. Sua ficção concentra-se, sobretudo, nas regiões mais profundas do inconsciente, investigando, assim, os desejos e as volições que, as mais das vezes, são ignoradas até pelas próprias personagens.

Recursos expressivosO espaço exterior, em suas narrativas, tem importância secundária, pois, tudo se resume à mente das personagens. Assim, o objetivo maior do texto é o momento da epifania: a personagem descobre que vive num mundo absurdo, - o que se dá por meio de um fato inusitado, a partir do qual, o desequilíbrio interior provocará uma mudança radical na vida da personagem. Obras: A paixão segundo GH; A hora da estrela; Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres; (romances) e Laços de família (de contos)

AÍLA SAMPAIO
COLABORADORA*



Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1103700

ENSAIO A poética do devaneio 11.02.2012



A infância é outro tema visitado, em diferentes abordagens. Em "De máscaras e desejo: infância na contística de Clarice Lispector", Élcio Luís analisa dois contos emblemáticos - "Felicidade Clandestina" e "Restos de Carnaval" - num aporte psicanalítico do desejo infantil e dos obstáculos a serem transpostos para a realização deles.
Resgates
"Clarice e a infância jamais perdida", de Fernanda Coutinho, resgata a Clarice menina, nas ruas de Recife, para intuir as páginas lidas que encantaram e viraram as palavras poéticas da escritora. São as vivências dos tempos de criança que norteiam, de acordo com a professora, a criação subsequente da escritora que enveredou pelas letras em tenra idade.
Já "Margens da alegria: a infância em 'A menor mulher do mundo'", de Sarah Diva da Silva Ipiranga, associa surpreendentemente as reações de Pequena Flor, a pigmeia minúscula que tem medo de ser devorada, ao comportamento infantil, embora já seja ela uma mulher e esteja grávida. Embora, como já se disse, os artigos não se limitem à análise das narrativas de Laços de Família, é dessa obra que surge a maioria dos artigos, cujos enredos propiciam diálogos homoautorais, o que dá unidade ao livro, pelas recorrências temáticas e ressignificações.
Dos processos
A análise do processo criador aparece à luz da Poética do devaneio, de Gaston Bachelard, em "Poética e devaneio do processo criativo de Clarice Lispector", de André Luiz Gomes e Jean Claude Miroir. Nesse esteio de análise da escritura, tem-se, ainda, "Devaneio e embriaguez duma rapariga": Clarice Lispector e a narração falsificadora", de Ilza Matias de Sousa, pesquisa embasada em teóricos como Gilles Delleuze, Maurice Blanchot, Féliz Guattari, Jacques Derrida, Michel Foucault. "A bruta flor do amor", de Lúcia Castelo Branco, com base em textos de Maurice Blanchot e Jacques Lacan, investiga os caminhos do leitor do conto "Amor" e fala sobre as contradições dos sentimentos nele existentes. Em "'Mistério em São Cristóvão' ou os mascarados e a mocinha do fio branco", de Odalice de Castro Silva, destacam-se os jogos de linguagem e esconde-esconde da autora de 'escrita insidiosa', que constantemente escamoteia a relação entre vida e Literatura.
Quatro leituras
"A menor mulher do mundo e outras mulheres nos laços narrativos de Clarice Lispector", de Ângela Fernandes de Lima" focaliza 4 contos - "A menor mulher do mundo", "Uma galinha", "Feliz aniversário" e "A imitação da rosa", mostrando a relação eu versus o outro e centrando parte da análise na figura da personagem Pequena Flor, a mais diferente das mulheres clariceanas.
Em "O teatro da crueldade e o animal - escrita na fábula da modernidade clariceana", Ilza Matias de Sousa e Maria Eliane Sousa da Silva analisam os devires, com base em Maurice Blanchot, Antonin Artraud, Gilles Delleuze e Félix Guattari. Em "Nem tanto a Ulisses nem tanto a Penélope: a sobrevivência do mito em Clarice Lispector" de Maria Aparecida Ribeiro, resgatam-se os significados dos mitos na associação entre os personagens de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres a Ulisses e Penélope, da epopeia Ilíada, de Homero.
Múltiplos diálogos
Saindo das obras para a vida, mas perquirindo sempre a criação literária, "Essa coisa íntima que está sempre queimando em Lúcio e Clarice", de Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma pergunta (1999), fala sobre a amizade entre Lúcio Cardoso e Clarice Lispector, suas influências e trocas de afetos.
O diálogo da literatura com outras linguagens, por meio do texto clariceano, aparece nos artigos de Ermelinda Ma. Araújo Ferreira ("Sujos quintais com tesouros: escrita e riprografia em CL"), que investiga escrita e riparografia, fazendo a equiparação da escrita clariceana à riparografia da pintura; e no de Taciana Oliveira, "Acordes para um roteiro", que disserta sobre o filme "A descoberta do Mundo", dela em parceria da cineasta com Teresa Montero, biógrafa de Clarice; a proposta é, no filme, tecer o diálogo da obra com a autora. Já "Clarice por trás da objetiva" é uma resenha sobre o livro Clarice fotobiografia, de Nádia Gotlib, feita por Ricardo Iannace, acerca da cronologia de fotos publicadas no volume.
Considerações finais
É interessante, também, ler crítica sobre a crítica, - "O leitor sitiado e a renovada experiência da leitura: uma crítica que se conta", de Diana Junkes Martha Toneto, faz uma leitura crítica do livro Clarice: uma vida que se conta, de Nádia Gotlib. Por último, sabe-se acerca do catálogo da coleção Clarice Lispector do Instituto Moreira Sales, bem exposto por Fábio Frohwein, com o inventário de todos os arquivos, correspondências, documentos sonoros, pinturas, fotografias e obras. Clarices: uma homenagem é um marco na fortuna crítica da obra de Clarice Lispector e se afirma, desde seu lançamento, como um livro fundamental acerca da diversidade e complexidade do texto clariceano bem como de sua vida mitificada e ilusoriamente compreensível por meio dos seus escritos.

SAIBA MAIS
BLOOM, Harold. Cabala e crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1991
MORAES, Alexandre. (Org.) Clarice Lispector em muitos olhares Espírito Santo: UFES, 2000
MOSER, Benjamin. Clarice, uma biograifia. São Paulo: Cosac Naify, 2009
NUNES, Benedito. O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989
SANTOS, Roberto Corrêa dos. Lendo Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Atual, 1986

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1103705

domingo, 28 de agosto de 2011


Ensaio da amiga e professora Aíla Sampaio publicado em 14/08/11 no caderno CULTURA do Diário do Nordeste sobre a narrativa no Ceará. Em destaque são os escritores Jeff Peixoto, Inez Figueredo e Jesus Irajacy. 



Parte 1ª - A prosa: a deusa que nos encanta



PARTE 2ª - Heterogeneidade enunciativa e ousadia



http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1024975


Parte 3ª - Aventura da palavra


http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1024978

sábado, 23 de julho de 2011

Ensaio da amiga Aíla Sampaio para o Caderno CULTURA, do Diário do Nordeste no dia 17/07/11,  sobre a Antologia "O cravo roxo do diabo"": o conto fantástico no Ceará. Recentemente lançado em Fortaleza. 

 ENSAIO
A fantástica literatura do Ceará

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Recentemente, foi lançada em Fortaleza a Antologia "O cravo roxo do diabo": o conto fantástico no Ceará, organizada pelo escritor Pedro Salgueiro. A pesquisa durou três anos e resultou num rico acervo do gênero, revelando a prodigiosa criação dos escritores cearenses desde o século XIX, quando vieram a público as primeiras publicações de textos literários em nosso estado
A Antologia "O cravo roxo do diabo": o conto fantástico no Ceará é a primeira coletânea de contos fantásticos produzidos na terra de Alencar.

A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.

O volume da pesquisa fez necessária a participação de outros três nomes da nossa literatura: Sânzio de Azevedo, Alves de Aquino (Poeta de Meia Tigela) e Carlos Roberto Vasconcelos, o que resultou num livro de 674 páginas, cujo título foi tomado de empréstimo de um conto de Álvaro Martins, infelizmente não localizado pelos pesquisadores. A bela capa criada pelo escritor Raymundo Neto, bem como o trabalho gráfico da Expressão dão ao vultoso acervo o aspecto de obra definitiva. A istematização dos cânones do Fantástico passou por muitas revisões. A mais tradicional, de Todorov, no livro Introdução à literatura fantástica, assevera que ele se alicerça por meio da hesitação do leitor em ´aceitar´ ou não os fenômenos narrados, desde que tais fenômenos não predisponham uma leitura alegórica nem poética.

O enquadramento
O crítico estruturalista opõe, ainda, o que ele chama fantástico a outros dois conceitos fronteiriços: o estranho ou o maravilhoso; o fantástico ocupa o tempo da incerteza, da vacilação entre aceitar ou não o evento extranatural; assim que se escolhe uma resposta ou outra, o fantástico é abandonado e entra-se no domínio de um dos gêneros vizinhos: o estranho ou o maravilhoso. Nessa acepção, nem todos os textos aqui coletados estariam inseridos no gênero.

Tomando, entretanto, a concepção mais atual, de Ana María Barrenechea, que afirma a configuração do fenômeno em forma de problemas feitos a-normais, a-naturais ou irreales em contraste com factos reais, normais ou naturais, considera-se fantástico todo texto cujo enredo encene acontecimentos que transponham as leis naturais, ou seja, que coloquem em conflito o mundo empírico e o mundo fantasioso.

A Antologia
Na primeira parte da antologia, dedicada aos contos, constam 172 narrativas organizadas em ordem cronológica do ano de nascimento dos seus autores, tal como ocorre nos dois Apêndices. Todos os textos, embora focalizem o extranatural por procedimentos estéticos diferentes, inserem-se no que se denomina, hoje, literatura fantástica, numa acepção ampla do gênero, tomando-o, pois, como narrativas de mistérios que confrontam o racional e o irracional.

No Ceará, o primeiro conto fantástico de que se tem registro foi escrito por Juvenal Galeno. "Senhor das Caças" tem a mesma estrutura das narrativas de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna: enquanto trabalham com a mandioca, num serão na farinhada, os sertanejos contam histórias de caiporas, aventuras de caçadas e encantamentos. São histórias dentro de uma história. Igual estrutura está no conto "Capitão Maciel, 3.ª companhia", de Tomás Lopes, cujo enredo deixa claros seus desdobramentos: "Depois do jantar, na salinha do café, falava-se de casos estranhos, mistérios do além-túmulo. Cada um contava a sua história, todos, porém, afetando descrença, ceticismo, explicando tudo pela coincidência", numa tentativa de racionalização que não impede o espanto quando se constata a aparição de um morto, motivo também presente em Cruz Filho ("A basílica"), cujo enredo comprova a presença da ex-escrava nas ruínas da igreja onde morreu. Florival Seraine, igualmente, em seu "Guajará", coloca o insólito em contação de ´causos´ numa venda.

O realismo cearense foi prodigioso no espírito inventivo das narrativas fantásticas do início do século XIX. Duas representações significativas estão nas narrativas de Pápi Jr. ("A cruz-das-malvas") e Oliveira Paiva ("O ar do vento, Ave-Maria"). No enredo do primeiro, há uma atmosfera propícia para o sobrenatural, na descrição esmerada da escuridão da noite impenetrável e compacta, corria-nos pela frente como um largo pano sujo de fuligem, em que aparece, na estrada, em frente à cruz-das-malvas, o fantasma da pessoa que lá foi enterrada. Na do segundo, a aparição de um monstro, no meio da noite, carregando a cabeça de uma mulher (fazendo, ainda, umas caretas horrorosas) para enterrar.

E vários motivos dão asas à criação do conto fantástico cearense, como as peripécias do capeta ("O dia aziago", Lopes Filho), aparição de almas penadas ("Alma penada", de Américo Facó), espectros ("Espectros", Gustavo Barroso), visagens ("Junho é um mês que não tem fim", de Batista de Lima). Histórias de pescador com aparição de sereias ("Sereias", Herman Lima) ou botijas ("Uma história fantástica", Martins d´Alvarez; "A botija", Genoíno Sales e "A botija", Lustosa da Costa).

Outras faces
Algumas vezes, não se configura nenhum fenômeno, tão somente a atmosfera de mistério estabelece a presença do extranatural ou seu prenúncio, como ocorre no conto "Casas mal-assombradas" de, Carlyle Martins (Numa visão macabra e sinistra, atestando a transitoriedade de uma vida de opulência e conforto, a velha casa, como que indiferente ao perpassar dos anos, ensombrada pelas mongubeiras sempre monótonas e sussurrantes, tinha as paredes carcomidas e cobertas de fendas./.../

Por seu aspecto aterrador, atestava ela a glória do passado distante, obscurecido pelas brumas dos tempos e demonstrando como a felicidade humana é incerta e passageira...) e em "A Oiticica", de Otávio Lobo (Se alguém, rompendo o escuro, passa debaixo de alguma oiticica, sente arrepios de medo, pavor de visagens e, ainda, assombrações de almas do outro mundo).

Fique por dentro A gênese do discurso
O gênero fantástico tem suas raízes nas histórias de deuses, fadas e feiticeiras da Antiguidade Clássica, mas se consolidou como estética a partir do Romantismo, com suas narrativas góticas. Como todo gênero, o Fantástico teve estabelecidos os seus cânones, continuamente fundamentados e revisados por teóricos como Roger Callois, Tzvetan Todorov, Irene Bessiérre, Louis Vax, Victor Bravo, Filipe Furtado, e, mais adiante, a filóloga argentina Ana María Barrenechea, entre outros. Mestres do Horror, como H.P. Lovercraft, E. T. A. Hoffman, Edgar Allan Poe e Teophile Gautier deixaram um legado para os amantes do sobrenatural e exerceram influências na ficção fantástica produzida em todo o mundo.

AÍLA SAMPAIOCOLABORADORA*
* Professora da Unifor; poetisa e ensaísta, autora do livro Os fantásticos Mistérios de Lygia (2009)

ENSAIO

Aspectos de uma engenhosa escritura

Publicado em 17 de julho de 2011

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São bastante prodigiosos os engenhos dos nossos contistas, seja a dar vida a uma bailarina de bronze, num delírio ("A cigana", de Pimentel Soares); a configurar um milagre de um padre que salva, com sua atitude, um jovem médico da fúria de fanáticos religiosos ("Milagre" - Fran Martins), seja a atribuir a concretização de um fato insólito à fé em Nossa Senhora, como o faz João Clímaco Bezerra ("História do mar"), ou, então, a fazer sorrir um macabro boneco de Judas ("Judas", Edigar de Alencar).

Entre muitos dos textos modernos, permanecem os temas tradicionais, como a metamorfose e a morte: no conto "Pedra encantada", de Raquel de Queiroz, A história é que toda véspera de Ano-Bom ao bater da meia-noite a pedra se desencanta... molda-se a mulher toda na pedra mole como o barro no torno do oleiro. /.../ E por fim. Exausto, dorme, e quando o dia amanhece ele acorda à beira da água, junto às moitas de muçambê, e vê a pedra escura ao seu lado, e tudo lhe diz que as suas lembranças foram um sonho. Já na narrativa "O 10 nos limites do Bené Gavião", de Barros Pinho, "O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado".

Elementos temáticos
A morte toma forma humana em "Dizem que os cães veem coisas", de Moreira Campos, que a personifica na figura de uma mulher, antiguíssima, atual e eterna, para levar a vida de uma criança que se afoga na piscina enquanto os pais divertem-se numa festa. Do mesmo modo, no romance A Casa, de Natércia Campos, além da antropomorfização da casa, que é a narradora-testemunha de muitas histórias que se passaram sob o seu teto, a morte também assume a forma de uma pessoa que surge inusitadamente quando ocorre um suicídio por enforcamento em um dos quartos. No conto "O encanto recidivo", de Giselda Medeiros, os mortos dançam e pensam; nos enredos criados em "A capa de chuva", de Sânzio de Azevedo e em "As almas do rio perdido", de Lucineide Souto), pode-se perfeitamente conversar com pessoas mortas; em "Terror", de Glória Martins, bonecas adquirem vida, riem pavorosamente e cometem crimes.

Mistérios do além
No conto "O Homem de Neandertal" de Rubens de Azevedo, não há fronteira entre o presente e o passado; o narrador tenta proteger um amigo arqueólogo de um atentado fatal, mas não consegue: " não sonho. Parece que penetro numa fenda do tempo e participo realmente daquela vida primitiva". O arqueólogo, mesmo trancado no quarto do amigo que o vigia pelo lado de fora, é assassinado, durante a noite, por um homem das cavernas que já foi seu objeto de estudo e já vinha, há muito, ameaçando tirar-lhe a vida. Já Raimundo Batista Aragão instaura o sobrenatural na figura de uma alma penada que aparece na estrada para pedir ajuda aos incautos. Diz o narrador de "O assobiador do Folha Larga": "sexta-feira, 13 de agosto e noite de lua cheia. Como reforço às possibilidades de encontro com os mistérios do além, havia e bastante comentado, o "Assobiador do Folha Larga" cuja figura era tida como infalível. /.../ Corcunda, rosto coberto, pernas alongadas e a imitar com perfeição as pernas de um alicate. Fez-me lembrar de relance a fealdade do Corcunda de Notre Dame. Conduzia no dorso certo fardo volumoso, talvez pesado e sobretudo incômodo, uma vez que o soprar constante demonstrava cansaço. Aproximou-se ainda mais, do local onde eu me encontrava e deu o ar da costumeira e civilizada educação", tratava-se, na verdade, de um filho que há tempos assassinara o pai e ficara a vagar, carregando um peso nas costas, qual Sísifo castigado, inexoravelmente, por Zeus.

As transposições
No conto "Quadros em movimento", de Lourdinha Leite Barbosa, ´os personagens´ dos quadros afixados na parede do apartamento da narradora libertam-se e saem, como em rebelião, cada um contando a sua história de aprisionamento nas telas; quando o leitor tende a racionalizar o acontecimento, atribuindo-o a um delírio da narradora que se confessa extremamente cansada, eis que ela desperta com a queda de um quadro e percebe que a tela está completamente branca, sem vestígio de tinta.

Já no conto de Rosemberg Cariri, ocorre uma situação inversa: um homem adentra uma tela e, logo que se integra à paisagem, numa sensação de bem-estar, descobre a presença de um leão feroz. No enredo de "Escadaria", de Mônica Silveira, a personagem entra no cenário de um desenho, depois retorna à realidade, como se o insólito fosse natural. No "O leopardo da galeria Pedro Jorge", de Aldir Brasil, o narrador inicia o conto declarando "Escapou do Bom Jardim depois do sumiço da mãe e instalou-se para sempre nas paredes da cidade, feito colagem barata"; após inusitadas situações, o personagem desaparece sem que saibamos se era realmente homem ou bicho. Em "A última obra", de Isa Magalhães, é a leitora que entra na obra que está lendo, fundindo, assim, realidade e ficção.

Múltiplos caminhos
A técnica da tentativa de racionalização do evento fantástico, de que falamos há pouco, própria do escritor consciente dos cânones do gênero, está também presente na narrativa "Tugúrio", de Carlos Vazconcelos; quando o leitor pensa que tudo o que o personagem viveu foi apenas um pesadelo, o narrador o arrebata com a informação: (Texto I)

No universo fantástico, tudo é perfeitamente possível: Unhas que surgem durante a noite ("Unhas", de Ana Miranda); ondas que aparecem repentinamente e invadem a cidade ("A onda", de Adriano Espínola); a moça que tem gatos dentro de si ("A menina que tinha gatos dentro de si", Carmélia Aragão); uma cidade estranha, dominada pelos dragões, que remete a uma alegoria (que não se concretiza) da impossibilidade de se viver nas metrópoles atualmente ("Os quatro dragões azuis", de Dimas Carvalho); o jogo de dama ativo mesmo após anos da morte de seu dono, que o movimenta durante a noite, seguindo o ritual de quando estava vivo ("Jogo de Damas", de Pedro Salgueiro). No texto de Jorge Pieiro, "O bicado Oreblas", o que ocorre no sonho do personagem se torna realidade quando ele acorda, como se o mundo onírico e o real tivessem feito um pacto.

O insondável mistério da morte permite muitas experiências estéticas e inspira a criação de universos que transcendem a razão. No irônico "Pequeno interlúdio para o desespero", de Airton Monte, a personagem parece ter passado a vida a aprender a cozinhar para os seus familiares, pois, quando atinge o seu objetivo e os procura para se sentarem à mesa, todos viraram peças de pedra ou de cera; a descontinuidade do tempo permite que ela não o perceba. Em "Folhas Caídas", de Nilze Costa e Silva, a vida da personagem depende da vida da planta; quando o vegetal murcha, a moça sabe que é hora de partir. No conto de Silas Falcão, "O Celular", o protagonista, após retornar de um enterro, recebe a ligação da pessoa morta. Já em "O sobrevivente", de Tércia Montenegro, são "as nuvens ruins do céu" o elemento desencadeador de uma maldição.

O insólito
Acontecimentos inusitados se desdobram nos enredos, tornando possível o que parece absurdo. Nilto Maciel metamorfoseia um rosário na figura de um homem: (Texto II)

O conto de Glauco Sobreira, "Como sou por dentro", surpreende pela simplicidade com que os elementos narrativos, em poucas descrições, criam o efeito fantástico: o personagem tem uma ferida no tórax que o transforma numa ruína. Lembra a alegoria de "O homem do furo na mão", de Ignácio de Loyola Brandão, mas a expressão concisa do autor não permite encontrar, nem no final do texto, qualquer explicação racional para o fenômeno. Do mesmo modo, lembra uma alegoria do homem saturado pelo estresse da vida o enredo construído por Jesus Irajaci Costa, em "Avenida Treze", onde o advogado Jorge Vargas, atormentado por problemas domésticos, acorda num dia incomum e atinge o seu limite de tolerância ao ver-se preso num engarrafamento. Ele se transforma num gorila e, após deferir golpes nos automóveis parados na avenida, foge, incólume, para o mangue.

Se os fantasmas ´alvacentos e aterrorizantes´ eram os instauradores do insólito nos primeiros contos fantásticos, fazendo jus a uma era de crendices em visagens e espectros, no nosso tempo, o extranatural pode ser apenas a desagregação do real, e os motivos se atualizam para traduzir o medo de um novo tempo: uma planta, os pés inchados, um relógio, ou "humanoides planando sobre discos metálicos". São muitos os contistas cearenses que enveredam pelo insólito; alguns de modo mais tradicional, instaurando um clima desagregador e o medo; outros naturalizam o extranatural, trazem-no para a rotina do personagem sem a instauração do pavor, embora colocando o leitor diante de fatos que fogem, então, totalmente da lógica referencial.

Trechos
TEXTO I
"O ambiente agora era úmido e fétido. Verificou as palmas das mãos com olhos abismados. Mal podia acreditar. Teve visões difusas do seu inferno. Mas ainda não era hora de purgar a alma. Só quando voltou a si definitivamente é que foi recordando... aos poucos... E compreendeu, com assombro, que o pesadelo estava apenas começando".

TEXTO II
"O rosário não parava de se mover, arrastava-se pelo chão como um réptil, dando voltas ao redor da mesa e de nós. E só então compreendemos a verdadeira natureza das contas. Não, não se tratava de um rosário de contas, de um objeto, mas de um ser vivo". Raymundo Netto, no conto "Anúncio", cria um personagem que, no decorrer dos fatos, inquieta-se com os olhares e as atenções que atrai; só no final revela-se o mistério: "Foi ao banheiro, torceu para que a cunhada ali não estivesse, e encostou-se à pia. Foi então que teve a conclusiva revelação: ante ao armário do banheiro, percebeu que, ao invés de sua costumeira face, havia um espelho!".


ENSAIO

A casa enquanto abrigo para o insólito

Publicado em 17 de julho de 2011

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Na segunda parte da Coletânea, estão capítulos ilustrativos dos 17 romances fantásticos escritos por cearenses. O primeiro, A casa assombrada, de Bezerra de Menezes, traz a inserção do sobrenatural, a presença de barulhos estranhos e mesmo uma assombração corporificada, capaz de interagir com os vivos para horrorizá-los: de repente, foi a atenção de um e de outro atraída para a aparição de um terceiro, embuçado em um capote escocês, que se acocorou ao pé de Manoel e pôs sobre as brasas a sua espetada. Esta, em vez de ser de carne, era um sapo enorme, cuja gordura derretia-se e pingava nas brasas, que crepitavam sinistramente. Os dois olharam-se como quem dizia: temos obra. O intruso, mudo e impassível, virava o sapo, ora de barriga para cima, ora de costas, e, por fazer obséquio a quem lhe fornecera as brasas, levava-o acima da espetada vizinha para untá-la com a gordura que escorria do bicho. O Fantástico se realiza de forma tradicional, tanto pelo espaço, como pelo clima soturno que se estabelece, quanto pelo motivo que conduz o enredo.

Rodolfo Teófilo
Em O Reino de Kiato, de Rodolfo Teófilo, não há a presença de assombrações, mas tão somente de elementos que subvertem a normalidade, como a flor esquisita e curiosa, que Tinha corola de um sem número de pétalas azul ferrete, quase negro, como que brunidas, com reflexos metálicos, e no centro os órgãos de reprodução, alvos como arminho; engastava-se num pedúnculo curto, envolvida num ambiente delicado e sutil perfume bem como a uma crisálida, uma joia que resplendia aos raios do sol, vistas pelo dr. John King Paterson, ao chegar em Kiato, cidade que causava estranheza pela soberania da liberdade depois de mais de um século de reação contra os usos e costumes, frutos da intoxicação alcoólica e sifilítica.

Já A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas, retoma o diálogo com os mortos, visto em A casa assombrada, configurando um fenômeno que ultrapassa o estranhamento, a mera anormalidade, e instaura a presença do sobrenatural, tal como ocorre também em O valete de espadas, de Gerardo Mello Mourão, por meio do casarão e de Gamaliel que figuram ao narrador como aparições diabólicas, modificando, inclusive, a sua visão sobre a anormalidade da amada Jezebel.

Os espaços
A casa assombrada, ou o casarão, ou simplesmente a casa, são espaços e motivos de várias narrativas presentes nesta Antologia. Na obra de Natércia Campos, a casa é a personagem protagonista e a narradora de fatos que atravessam gerações. Em o Mundo de Flora, de Ângela Gutiérrez, há um casarão onde se ouve a voz dos mortos; em Leão de Ouro, de Natalício Barroso, há até a observação: "não há casa antiga que não tenha seu fantasma", já que os mortos arrastam chinelos, desarrumam coisas e acendem velas.

Em Coração de Areia, de Marly Vasconcelos, também são os mortos os autores dos fenômenos, pois se manifestam e exercem influência na vida dos vivos através dos seus retratos. No enredo de Busca, romance do professor Teoberto Landim, igualmente há uma casa mal-assombrada, onde, durante a noite, estilhaçam-se garrafas no chão. Seja com um leitmotiv futurista, como disco-voador; inusitado, como cabeças de deuses que dão orientações para a vida; ou tradicional como a visão de almas, o ouvir de vozes, a petrificação de uma moça durante a missa ou o revoar de morcegos presos em gaiolas, aparição de serpentes ou abutres, transformando o clima de toda uma região, as narrativas se constroem por meio de fenômenos inexplicáveis pelas leis da razão.

Loucura e maldição
Em Os verdes abutres da colina, de José Alcides Pinto, loucura e maldição se fundem, criando um universo completamente surreal. A lógica dos fatos é subvertida pela presença de uma maldição em todo o Alto dos Angicos, região fundada pelo coronel Antônio José Nunes, o garanhão luso que naufragou naquelas terras e a povoou unindo-se a uma índia. Ele multiplica a população ao relacionar-se com várias mulheres ao mesmo tempo, inclusive com suas filhas; assim, seus netos são também seus filhos. Os verdes abutres anunciam o fim de tudo, transformam toda a atmosfera, mesmo com a crença do povo no poder do demônio preso numa garrafa.

Não necessariamente o evento instaurador do insólito percorrerá toda a obra romanesca; desde que encenado, em qualquer passagem, dará a ela a caracterização do gênero de que ora tratamos, o que não negará, se existente, a presença do estranho, do maravilhoso, do macabro ou do surreal.

Quanto aos poemas, os teóricos do gênero não citaram, em nenhum de seus estudos, peças para ilustrar características do Fantástico, tão somente mostraram a sua configuração em composições narrativas como o conto e o romance. A despeito dessa desconsideração pela presença do gênero em versos, um dos primeiros textos que incorporaram elementos como gigantes, deuses e intervenções sobrenaturais na literatura foi o "Poema de Gilgamesh", composição suméria do 2000 a. C, a que se seguiram a epopeias a Ilíada e a Odisseia, de Homero, todos, como é natural do épico, versos narrativos com forte inserção do extranatural. Já na Idade Média, apareceu, na Índia, o Mahábharata, poema que narra acontecimentos históricos que têm, nitidamente, a intervenção do mitológico. Especificamente no Ceará, tais manifestações se deram, inicialmente, na poesia do patriarca Juvenal Galeno, do poeta Barbosa de Freitas, dos romancistas Bezerra de Menezes, Rodolfo Teófilo e Emília de Freitas, bem como em contos e poemas de Antônio Sales, percorrendo as correntes estéticas que se seguiram e se sobressaindo, então, em gêneros textuais variados.

A voz lírica
Tomando o Fantástico na acepção de fantasia ou encenação de evento transgressor da normalidade, os organizadores decidiram incluir nesta coletânea poemas que transparecem imaginações delirantes ou evocam criaturas que subvertem fatos naturais, como bruxas, duendes, gnomos, feiticeiras, morcegos, sereias, satanás. Compreendendo-o, em sua concepção primeira, como instauradores do mal, os versos são abundantes em palavras como: treva, morte fúnebre, lúgubre, sombrio, tormento, fantasma, mistério, vulto, pântano, assombração, medo, maldição, alma, soturno, visagem, espectro, pavor, horror, presságio, todas pertencentes a um campo semântico muito semelhante. O ponto alto da seleção está nos poemas narrativos, dos quais se podem destacar Excertos de Brosogó, Militão e o Diabo, de Patativa do Assaré, em que Brosogó acende vela para o diabo e o encontra, na vida real, como seu defensor; em O vestido que verteu sangue, de Oswald Barroso, conta-se a história de Maria Sinhá, cujo vestido verteu sangue, como anuncia o título, Saiona, a mulher dos olhos de fogo, de Rouxinol do Rinaré, cujo título já anuncia a desordem do real.

Considerações finais
Seja no conto, seja no romance ou nos versos, os fenômenos sobrenaturais e o insólito são fontes de inspiração perene para os escritores cearenses. A desagregação da lógica, a subversão da normalidade, se dá, sobretudo, pelo insondável mistério da morte, que predispõe a inquietação e a inventividade dos que sondam seu enigma. A metamorfose, a aparição dos mortos, a presença de seres sobrenaturais ou providos de poderes inusitados colocam o leitor diante de um universo em que absolutamente tudo é possível. Com essa amostra, tão bem selecionada pelos organizadores da antologia, vê-se que o gênero fantástico permanece, embora com seus cânones revisados, e que a produção da nossa literatura está em constante busca do universal; ultrapassou, há muito, as fronteiras do regional e pode se afirmar, qualitativamente, em qualquer contexto.

Saiba mais
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1993

DIMAS, Antônio. Espaço e romance. São Paulo: Ática, 1986

MESQUITA, S. Nahid de. O enredo. São Paulo: Ática, 1986

PARDAL, Paulo de Tarso.Discurso do imaginário. Fortaleza: Livro Técnico, 2003

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Cia das Letras, 1999

quinta-feira, 23 de junho de 2011


Ensaio de domingo 19/06, texto da amiga e professora Aíla Sampaio para o Caderno 3, do Diário do Nordeste sobre o percurso da poesia desde a sua antiguidade, até chegar a quatro poetas cearenses do gênero.

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A poesia e seus percursos

Publicado em 19 de junho de 2011 
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A poesia, desde a antiguidade, percorre caminhos e veredas na reconfiguração do mundo, na transfiguração da realidade, em experiência estética. Neste ensaio, faz-se uma reflexão sobre esses percursos e fala-se sobre as últimas publicações de quatro escritores cearenses no gênero
Poesia é uma forma de expressão literária que surgiu na antiguidade simultaneamente com a Música, a Dança e o Teatro. A partir de então, muitas foram as tentativas de defini-la, entendê-la, escrevê-la. Para Platão, a poesia, como a arte em geral, era uma ameaça epistemológica e ética à sociedade, pois ele via o artista como um fabricante de fantasias que desviavam as pessoas das verdadeiras ideias (a arte era mimese, isto é, pura e simples imitação do real).

Além disso, a arte estimulava as paixões, os afetos e as emoções, que, descontroladas, podiam, conduzir à guerra e à catástrofe. Por conta desse risco, a arte só poderia ser praticada por crianças, loucos, mulheres e escravos, que não exerciam influência. A boa convivência em sociedade dependia de certa a-phatia (ausência de emoções), por isso, em A República, ele diz que os artistas devem ser expulsos da cidade para que ela seja justa e feliz. A arte era falseamento e, assim sendo, não poderia influenciar os cidadãos comprometidos com a verdade.

A Poética
Já Aristóteles (384 a.C.), seu discípulo, no livro Poética, procurou mostrar que a arte é verdadeira, sim. Ele reinterpreta a mimese ao afirmar que a arte não é só reprodução, mas reinvenção do real. Afirma que a poesia (universal) é mais séria e filosófica do que a história (particular) e vê nela (como nas outras artes) a função catártica; atribui a ela um efeito purificador, benéfico.

A harmonia da cidade não estava na a-phatia, mas na boa medida entre razão e afetividade. Além de um meio para transmissão do saber, a arte passou a ser vista como edificante e pedagógica.

Foi no séc. V a.C., que apareceu a designação do poeta como poietés. Até então, Homero e seus companheiros eram designados como cantadores, aedos (aoidoí), isto é, aqueles que cantam os altos feitos dos homens e dos deuses. No decorrer do tempo, as experiências estéticas com a poesia foram muitas. No Trovadorismo, entre os séculos XII e XIV, a poesia era ligada à música e recebia a denominação de Cantiga (Cantiga de amor, a que tinha como eu-lírico o homem; Cantiga de amigo, a que tinha como eu-lírico a mulher; mais as Cantigas de escárnio e maldizer). No Humanismo, além de ressuscitarem-se as canções de gesta francesas para inspiração das novelas de cavalaria, praticou-se a poesia palaciana, feita para ser recitada nas festas, uma poesia de louvor. O Classicismo, no séc. XV, trouxe a magnitude de Camões com sua epopeia Os Lusíadas e os sonetos de amor moldados na fôrma clássica.

Poesia no Brasil
Até aí não se fala na poesia brasileira, porque nossa terra foi oficialmente encontrada apenas no século XVI. Foi no período da colonização que a poesia chegou ao Brasil, com finalidade pedagógica e de catequização. No Barroco, ela foi a expansão da verve ácida de Gregório de Matos, que se vingava de quem o atingia por meio dos seus versos. No Arcadismo, ela cantou a vida simples e, no Romantismo, idealizou a mulher e o amor, despida de compromissos estéticos, tão-somente comprometida com a inspiração do poeta para cantar o amor ou clamar pela libertação dos escravos.

Os parnasianos contestaram o uso da poesia para qualquer finalidade e passaram a cultuar apenas a forma; a arte não deveria ter função, deveria existir puramente, sem contaminar-se com os apelos da subjetividade humana. A ´arte pela arte´ era o princípio da criação artística. Muitos simbolistas reagiram a essas ´algemas´, no final do século XIX, e buscaram novas soluções formais, sobretudo na França, mas, no Brasil, tal experiência não ultrapassou o alcance de uma linguagem fluida, vaga, em busca de evasão pela espiritualidade.

A outra face
No século XX, a poesia perdeu toda essa pompa… o verso livre dos modernistas e a inserção do cotidiano como tema poético abriram espaço para que o poeta se movimentasse em liberdade entre as palavras. E foram muitas as experiências com essa liberdade: os concretistas aboliram o verso, o poema-processo mostrou a desnecessidade da palavra, o neoconcretismo cobrou engajamento nas questões sociais, o Tropicalismo reacendeu o diálogo entre a poesia e a música, os poetas marginais expressaram sua irreverência,… e hoje? O que restou disso tudo? Que função a poesia tem?

A poesia permanece como uma forma de criar outro mundo "mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado - por cima da realidade imediata", com diz Gullar. Ela é a possibilidade de expressar, através da palavra, esse mundo objetivo que nos cerca ou o mundo de subjetividades que nos enreda. É como a luz que falta para que enxerguemos. Quem faz poesia tem a capacidade de transfigurar o real, recriá-lo… Quem lê poesia fica mais leve para aguentar o peso da existência. Isso, porque ela é, naturalmente, algo que se diferencia do ordinário, do comum, do mediano. Ela reconfigura as mentes ao lançar sobre elas novos olhares, ao mostrar o que não se vê a ´olho nu´, ao fixar sentimentos e pessoas que o tempo carrega.

Da poesia
Não importa que os chamem de lunáticos, que os acusem de sonhadores… os poetas têm um universo muito particular. Realmente, nessa sociedade neoliberal e individualista em que se vive, os que amam e se dedicam à poesia têm que construir um universo à parte e preservar o sonho libertário da construção de um espaço anárquico… São os anjos gauches de Drummond. De que outro modo podemos não perder a delicadeza? Esse espaço anárquico de que falo está dentro de nós e é o que nos capacita à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a poesia esse antídoto. Sem ela, onde celebraremos nossos amores? Eles perecerão ou quedarão entristecidos como um violão com a corda quebrada, abandonado por quem quis, mas não aprendeu a tocar. Sem a poesia, o que faremos com a nossa saudade e com a nossa esperança de dias melhores? Com os nossos amores que não deram certo? Onde colocaremos nossas lágrimas e nossos risos? Poetas são, sim, lunáticos… bendita seja essa nave que os conduz a esse mundo onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces. Quem não se rende à poesia, quem não se deixa seduzir pelos seus olhares, sentirá o mundo e até a si mesmo dentro dos secos limites das objetividades. Não se comoverá diante de um pôr do sol e só enxergará pedra nas pedras, nunca será capaz de transformar lágrimas em oceanos ou dores em saudades gostosas de sentir.


FIQUE POR DENTRO
O estado poético
Como fala Cohen, a poesia força a alma a sentir aquilo que geralmente ela se limita a pensar. Se lembrarmos de ´O cão sem plumas´, de João Cabral, veremos como ele, por meio dessa metáfora, chama o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu voo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem: "Como o rio / aqueles homens / são como cães sem plumas". São esses olhares que nos dão conta de que o poeta tem o poder da reconfiguração. Eles veem o que subjaz, o que não emerge à flor dos olhos da maioria. Distinta de sua teorização literária, a poesia pode ser apenas um alimento para a alma. Ela não precisa ser entendida em sua forma, dispensa conhecimentos prévios de métrica ou rima, de melodia ou de escansões. Ela precisa essencialmente ser sentida. É essa possibilidade de criação do que não existe, e da recriação do que existe mas falta, que faz do poeta um ser especial


AÍLA SAMPAIO

COLABORADARA*
* Professora da Unifor

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Os poetas e as faces de cada estilo

Publicado em 19 de junho de 2011 
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 Nessa perquirição dos poetas de hoje, caíram-me as mãos, num só mês, quatro livros de poemas, todos de escritores cearenses: No limiar dos invernos, de Linhares Filho; 70 poemas para orvalhar o outono, de Barros Pinho; Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema , do Poeta de Meia-Tigela; e O livro de Marta, de Rodrigo Marques. São quatro poetas, quatro estilos distintos que se cruzam no gênero, na sensibilidade e no senso estético.

No limiar dos invernos
Linhares Filho é um canto da maturidade. O próprio título alude a um marco e é sugestivo de um momento de transição, quando o poeta se assume homem maduro, senhor de suas emoções; e poeta afinado com seu instrumento: a palavra e sua expressividade. No poema que abre o livro, "Legenda", ele fala sobre os frutos colhidos na madureza e interroga sobre o inverno que o espera, metaforizando os anos vividos e declarando-se atento ao galope do tempo: (Texto I)

Do ponto de vista formal, o mestre transita entre o verso livre e o metrificado com a mesma naturalidade com que celebra o silêncio e os ventos. Para ele, a poesia é "Fruto da necessidade do belo e do sublime...a eterna busca do ser". Os exercícios metapoéticos atestam sua consciência estética na criação literária, bem como a preocupação ontológica que perpassa também outras obras suas. Ser poeta, pra ele, é mais que ser homem: (Texto II)

As temáticas
O homem maduro não faz só um exercício estético de amor à poesia, celebra a fé, os amigos, a vida e a mulher amada. Constrói sua poética por meio de odes, propostas, convites, hino, homenagens, reflexões, cantos e orações. A religiosidade que parece mover sua vida desenha-se em preces e confissões de fé e atos de humildade diante do Senhor, a quem clama a virtude e o poético: "Dai-me a realização, Senhor, do santo anseio, não me tireis, porém, o espírito poético".( p. 37). Vertentes de sua existência, Deus e a poesia são seus escudos e seus broquéis. Só pela palavra, o poeta resgata o passado, frui o presente e vislumbra o futuro (p.35), integrando-se ao tempo e transcendendo-o. Senhor de sua pena, Linhares não priva seu grito pelo planeta: (Texto III)

Com a mesma leveza com que contempla o sono da amada, canta a irreverência do vento e a voz das aves: (Texto IV)

O estar no mundo
Conhecimentos mitológicos e bíblicos subsidiam sua criação e mostram um poeta consciente do seu estar no mundo em todas as suas faces: a do homem, do professor, do cidadão, do avô amoroso, do amigo e do amante apaixonado. Nessa diversidade, celebra poetas e amigos; louva a língua pátria e até a matemática, que registra a multiplicidade do universo (p.60); canta cidades que marcaram seus percursos: Rio de Janeiro, Argentina, São Paulo e Brasília e, como num balanço de seu universo multifacetado, fecha o livro com dois sonetos que elucidam o título da obra. O primeiro deles marca a consciência da maturidade e o desejo de manter o equilíbrio até o fim; no segundo, como quem se despede, diz vencer a dor inevitável pelo amor, sua última glória. (Texto V)

Poeta Barros Pinho
O livro comemorativo dos 70 anos do poeta Barros Pinho, "70 poemas para orvalhar o outono" traz 70 poemas selecionados de oito livros de sua autoria, e uma fortuna crítica respeitável acerca de sua produção literária: Linhares Filho e Ubiratan Aguiar apresentam a obra na qual estão, também, inseridos artigos assinados por Pedro Paulo Montenegro, Antonio Carlos Vilaça, José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Adriano Espínola, F. S. Nascimento, Pedro Lyra, Sânzio de Azevedo, Caio Porfírio Carneiro, Artur Eduardo Benevides, Antonio Girão Barroso, entre outros críticos que se debruçaram sobre a sua criação.

A beleza do volume se coaduna com a preciosa seleção de poemas, representativos, pois, de toda a sua poética, que tem como linhas condutoras duas figuras essenciais: o menino e o rio. Faz rediviva sua infância a cada verso, renascendo ´no papel´, entre linhas e entrelinhas, pois que, homem feito de linguagem, não sabe ser senão reinventando-se pela palavra, Ainda que ele diga (Texto VI)

O menino perdido no tempo cronológico aparece cada vez mais vivo no tempo da memória: (Texto VII)

Um rio
A travessia do rio é a travessia da vida que se rende a soluções geográficas apenas, racionais, desprovida de sonhos. Na alma do poeta, entretanto, ´se pode voar como pássaro´, na possibilidade de vencer a correnteza do tempo e recuperá-la, ainda que encantatoriamente, na poesia. Esse rio que atravessa a escritura do poeta é um rio atávico, cuja localização espacial - a Parnaíba - funciona como eixo, tronco de sua árvore genealógica. O homem que por razões diversas deixa sua terra de origem vive em duplo exílio: o físico e o psicológico, pois que, longe de sua taba, não encontra seu verdadeiro rosto senão no olhar para trás e no permanente saudosismo que o afaga: (Texto VIII)

As reminiscências, cavadas pela saudade, pelo acúmulo e intensidade, tornaram-se mais constantes na estação do outono, com que o poeta metaforiza sua entrada nas 70 décadas de existência, mas a saudade ancestral (que o acomete) está nele desde sempre: (Texto IX)

Sua poética presentifica ausências. No outono, a palavra desgoverna-se para romper os silêncios e orvalhar-se em confissão: há saudade, há solidão, há ´vontade de dizer / o que não se diz pela metade´ (p.83). E o poeta diz dos seus naufrágios, das celebrações, diz, sobretudo, do seu cansaço de tantas ausências. Mas não é de tristeza a poesia de Barros Pinho. Tampouco é meramente confessional. Não há lágrimas, mas celebração: (Texto X)

Sua saudade da terra é a saudade de todo exilado (não apenas de corpo, mas de coração) e as dores de que ele fala são dores sem nacionalidade definida. O rio foi o começo de tudo, foi o espasmo ante o incognoscível. Depois veio o amor com suas estradas impossíveis, assim, de não as percorrer: (Texto XI)

Assim o menino se fez homem, sendo universal ao cantar sua aldeia (Tolstói). Hoje, depois de tanta estrada e poesia, depois de tantas travessias de rios e mares, continua menino o homem que reconfigura o Natal; continua menino o poeta que orvalha seu outono com poesia...; e com certeza, continua a procurar São Jorge nas luas de suas tantas terras. Seus sonhos não se evaporaram, tampouco as folhas caídas que ele cata e, assim, as recupera a cada verso que escreve.


TRECHOS
TEXTO I
Frutos colhi de minha noite em trégua, / Produtos viscerais da madureza. / Irei também no inverno, a cada légua, / Colhê-los de alma pronta e sempre acesa? / Pautada a rota por divina régua, / Espero ver tais frutos sobre a mesa, / Depois que, ao dorso de um cavalo ou égua, / Minha alma galopar, a crinas presa. (p.33)

TEXTO II
Perquire muito além do que vês e do que ouves. / Flores não tocarás, sem ter pena, por couves. / Sonha, em vigília, bem mais do que quando dormes . ("Contribuição à busca do poético" p. 38).

TEXTO III
"De Kioto a Copenhague / vive a clamar a mãe Geia / contra uivos de alcateia: / que o efeito estufa se apague,( p. 101)

TEXTO IV
"Dorme e observo o seu ressono. / Em seu mundo inconsciente / vai passeando tranquila e na penumbra / por alamedas
ensombradas / ou entre os pomares e jardins do outono? (p. 93)

TEXTO V
É o fim do outono em mim.
Chega-me o inverno. / Com as chuvas iniciais virá o frio. / Mas não quero sentir, no mundo interno, / Desolação, desânimo e vazio. /// Sem inapetência ter, não me consterno / E à minha cara infância ainda sorrio. / Se para a flor e o ninho ainda suou terno, / Aflige-me o correr do tempo em rio. /// Em apreensões o ser quase naufraga, / Tentando equilibrar-se sobre a vaga, / Para atingir triunfante o último porto. /// Mas, como antes do inverno, que se instala, / Nada farei sem te escutar a fala, / Querida, ou sem o bem do teu conforto. ("No limiar do inverno", p. 107)

TEXTO VI
setenta anos / muito tempo / para ser menino / não se agita mais / a água da infância / a vida só o papel / timbrado na sombra / onde se escreve o ontem / em páginas brancas / na face da espera (p. 29)

TEXTO VII
a infância corre / na correnteza do rio ///o sonho não sabe= / o rumo dessas águas/ seria o mar / ou o mar seria apenas / uma solução geográfica ///sabe-se / que só nós meninos / o rio se encanta / até voar como pássaro /// nasce em mim o desejo de escrever /// o rio inteiro a correr / sobre o papel da palavra / sintaxe de sol / antes dos olhos / se abastecerem de fadiga (p.52).

TEXTO VIII
meu avô morreu / na chapada da distância /// procurando a lua de olhos / vivos no rio o rio mais / longe de sua vontade /// as mãos sem carne / os pés sem perfume / a rastejar fantasmas /// na superfície das pedras / o engenho abrigo do tempo / moendo moendo seus ossos (p.64).

TEXTO IX
guardo há muito tempo / na gaveta da vida / uma solidão disfarçada / um triste acanhado / pelos cantos dos olhos no calendário (p.83).

TEXTO X
recordo / a adolescência / nas árvores / de minha cidade" (p. 160).

TEXTO XI
"o rio encheu os olhos / do menino / só de espanto // a menina / encheu-lhe a vida / de paralelas" (p.130).
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A poesia em concerto

Publicado em 19 de junho de 2011 
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O poeta Alves Aquino, encarnado no personagem Meia-Tigela, lançou, em 2010, o livro Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema, cujo subtítulo, "Combinação de realidades puramente imaginadas" traduz o movimento dialético que compõe sua criação, conjugando tradição e modernidade, realidade e imaginação. É, como a Bíblia, dividido em livros, mais precisamente, em 4, cada um com 4 subdivisões. Os números assumem, assim, importâncias e simbologias que, certamente, se explicarão ao final do seu projeto.

O estranhamento
O nome do autor abre espaço para que o leitor se perceba num território estranho, mas a alcunha que se supõe pejorativa vai, aos poucos, ganhando outras significações. Está-se diante de algo diferente, não há dúvida quando se começa a folhear o volume.

A respeito da previsível interpretação de poeta de meia-tigela como um poeta de pouco valor, ou de produção insuficiente, os editores da Revista Mamífero, oportunamente esclareceram " o pseudônimo ´Poeta de Meia-Tigela´ não é uma autodeterioração ou sub-valorização do que escreve. Sua origem tem ´um cunho social´ com o qual se identifica, visto que o termo representa ´a metade da ração oferecida ao serviçal, enquanto seu senhor ganhava a tigela inteira´.

Outra razão do pseudônimo é criar um personagem que seja o próprio autor e personagem de si mesmo, como o João Grilo ou Cancão de Fogo. Enfim, o uso do epíteto não é um distintivo de humildade; ao contrário, traz o Poeta um projeto ambicioso de encarnar um múltiplo personagem, criando uma bandeira dupla, uma apresentação automática para a sua obra, expressando algo inusitado.

]Para ele, essa é a origem que interessa, já que implica numa adesão ideológica e emocional". ("Um Poeta de Meia-Tigela", Revista Para Mamíferos N. 01, Fortaleza, 2009 - editores: Glauco Sobreira, Jesus Irajacy, Nerilson Moreira, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Tércia Montenegro).

O eu e o outro
Lembrei-me outra vez de Fernando Pessoa que, no poema "Tabacaria", diz: "Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara". Personagem e pessoa se fundem, amalgamados numa poética movimentada, a que ele mesmo chama de Concerto. A obra em apreço - Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema - é parte de uma composição quartenária. Quatro movimentos, pois, comporão a totalidade do projeto de composição do Concerto e a cada um deles é, previamente, "atribuído um elemento, bem como uma função psíquica, no intuito de estabelecer - dentro da totalidade, uma personalização e individuação dos seus momentos constitutivos", como explica o próprio autor no final do livro.

Os movimentos
Contemplamos, no volume citado, o 1º Movimento - Quarto Minguante (1/4), cujo elemento é terra, e cuja função psíquica é o pensamento. As outras 3 virão, posteriormente, quem sabe em formato idêntico, para compor o Concerto completo: 2º movimento, fogo e sensação; 3° movimento, ar e sentimento; 4º movimento, água e intuição.

Essa ordenação, esses liames tão arquitetados, demonstra um trabalho consciente, mais que isso, uma proposta de Obra Ampla. A miscelânea de formas, em versos livres ou metrificados, o que varia de acordo com o conteúdo, obriga o leitor a ativar-se e a interagir com os textos. A ordem é estabelecida, mas logo se foge dela.

Assim, em ritmo sempre inusitado, os textos se sucedem, revisitando o clássico e as mais variadas vanguardas, sem, entretanto, moldar-se a qualquer delas. Do Concretismo, se absorve a palavra-coisa, o aproveitamento do branco da página; da poesia-práxis, o movimento, a ação imposta à palavra; do poema-processo, a desnecessidade da palavra, o poema-imagem... mas é inútil ao leitor a criação de expectativa em relação ao que virá depois.

Vozes intertextuais
A pluralidade de estilos conjuga-se ao diálogo perene entre as artes, de modo que a música que compõe todo o concerto está em consonância com as imagens, os poemas e a teatralização. O poeta narra, disserta, compõe versos, fazendo dialogarem Homero, Dante, Goethe, John Mílton, Dostoiévski, ora com sinceridade, ora com ironia, brincando com as palavras ou levando-as bem a sério, articulando um estilo pessoal, embora bebido de muitas fontes.

Concerto não é, pois, uma viagem, um lance intuitivo, mera aventura com a palavra e suas possibilidades. É um projeto de composição ambicioso, com trabalho de linguagem e articulação entre o clássico e o popular; a brincadeira e a verdade. Palavras e cálculos matemáticos, lirismo e anti-lirismo, construção e desconstrução fazem a caleidoscópica poética de Meia-Tigela, sem dúvida, trata-se de um sangue novo para tirar da inércia a fina veia da poesia brasileira contemporânea.

Vejam-se, agora, os versos de Dois poemas do Concerto: (Texto XII)

O livro de Marta
Quem é Marta? A mulher de maiô, ou a cinéfila que nunca perde uma sessão das 18h30min, uma musa delirante ou apenas um pretexto para escrever alguns bilhetes. Sim, Marta não tem carne, é palavra, grito, vocativo.

Rodrigo Marques escreveu o "Livro de Marta", sub-intitulou-o de "Bilhetes de amor quebrados", e deixou o leitor na expectativa de algumas páginas confessionais.

Mas não. Marta é um pretexto pra falar de tédio e de amor; de um trote ou de uma blitz; de uma sessão de cinema ou de uma ida à papelaria; são poemas de desejo, de semáforos, piercing e shoppings. O rigor formal existe, é, aliás, bem evidente, e é igual para tratar dos assuntos. Entre versos livres e sonetos, o poeta constrói um estilo próprio, sem intenções de vangauardear, mas tão somente tirar a poesia do marasmo. Nada de mais; nada de menos. Ruy Vasconcelos fala de um traço arcaizante na obra. Sim, o poeta prefere bilhetes a e-mails e exercita o soneto. Visita Camões num intertexto surpreendente; lembra Mar portuguez, de Fernando Pessoa, em seu "Mar rústico"; provoca Marta, sonegando-lhes os versos que Pablo Neruda fez a Matilhe Urutia, sua amada: "Não és Matilde / Não és o mar / Nenhum dos cem sonetos de amor fez-se para ti / sequer uma barcarrola pousou no céu... ((p.23).

Cita Dante Milano e Ribeiro Couto, mas não parece beber nas fontes deles.

Dois poemas
Nenhuma tentativa de inovar, mas transfigurando naturalmente a linguagem; sem ironia com as formas fixas, também sem apologia a elas, Rodrigo tem a consciência exata de suas pretensões. Não é poeta por acaso ou circunstância. É poeta de construção e consciência. Leiamos, a ´título de exemplo, dois desses seus (poéticos) ´bilhetes´: (Textos XIII e XIV)

Conclusão
A poesia está em efervescência, não sucumbiu ao descaso do mercado editorial. Distintas experiências estéticas, variadas propostas e os mesmos objetivos: partilhar olhares transfiguradores, mergulhos no visível e no invisível, catarse e confirmação da existência. Seja qual for a proposta de cada poeta, vê-se que se mantém a necessidade de criar em versos, de renovar os cenários, de apostar nas velhas fórmulas, revisitá-las, dizê-las e desdizê-las. Num momento plural, de eliminação de fronteiras entre popular e erudito, sobrepõe-se o ecletismo e a desnecessidade de rótulos.


TRECHOS
TEXTO XII
Que dizer há muito, / Mas dizer sem boca. / A garganta é rouca / Para tal assunto. /// Assunto, coitado, / Que fica onde está. / Nenhum verso dá / Conta do recado. /// Recado sisudo /Que morre na toca. / A palavra é pouca, / Não toca o profundo. (Extraído do " Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. ", 4º Movimento, Livro 1, Seção A)

TEXTO XIII
À contramão de mim, / O ônibus passa, /// E se atrás / Viaja o corpo de Marta, / E se ainda, nesse corpo, / Viaja encarnado uma parte minha / Uma perna, um braço, uma mão, /// Escuto, //// Longe, /// A cidade estacionar-se ("Linha", p.38)

TEXTO XIV
Para que fazer unhas no salão mais caro / Se arranhas em mim os pesares, / As tardes, as frases, / Se deixas em mim um cheiro falso de esmalte? ("Fazendo unhas no salão mais caro", p.29)


SAIBA MAIS
COHEN, J. Estrutura da linguagem poética. São Paulo, Cultrix: EDUSP, 1974.

LINHARES FILHO, José. No limiar dos invernos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.

MARQUES, Rodrigo. O livro de Marta. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011.

MEIA-TIGELA, Poeta de. Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.

PINHO, Barros. 70 poemas para orvalhar o outono. Fortaleza: Premius, 2010.