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sábado, 14 de abril de 2012

ENSAIO - Diálogos nada silenciosos



Margleice Pimenta e Aíla Sampaio no Café da Cultura - Fortaleza- Ce. 
ENSAIO

Diálogos nada silenciosos

14.04.2012
Ensaio da professora, poetisa e ensaísta Aíla Sampaio sobre a arte  da literatura e  música com vários autores. 

Na cultura de nossa contemporaneidade, o uso legítimo da pluralidade de estilos é uma das marcas
As artes antes fechadas em suas próprias fronteiras, dialogam e se tocam, estreitando seus limites que, pouco a pouco, perdem a demarcação.
No que se refere à literatura, voltemos ao período clássico e lembremos Aristóteles, em sua Poética, dividindo as manifestações literárias em três gêneros: o lírico, que tinha como objeto o mundo interior, constituía o poema; o épico, que enfocava o mundo exterior ao poeta, se realizava nas epopeias; e o dramático, cujo teor recaía sobre os conflitos das relações humanas, assumia a forma de tragédia ou de comédia.
Cultura de mosaico
Com o passar do tempo, com as transformações cada vez mais rápidas, criou-se a “cultura de mosaico”, ou seja, o artista não seguia mais regras ou normas, tinha a liberdade de expressar sua arte como lhe aprouvesse. Segundo Coelho (1986 p.43), A única “norma” que jamais mudou (e que em cada época foi codificada de um modo) é a da coerência orgânica e profunda que deve existir entre o significado do discurso e, evidentemente, sua forma significante.
Sobre os gêneros
Hoje, mesmo com as espécies de gêneros alargadas, é difícil tentar qualquer delimitação, pois é característica do nosso tempo a incorporação de novas técnicas e linguagens: alguns romances parecem reportagens ou têm características de textos de teatro; alguns contos se assemelham a um poema em prosa e/ou se aproximam demais da crônica; muitas narrativas são feitas de modo recortado, em forma muitas vezes de colagem, sem uma continuidade lógica, permitindo a coexistência de textos de natureza diversa, tomando, emprestado da “sétima arte” os famosos cortes cinematográficos.

Outros trilhos
Além disso, ficcionalizaram-se outros gêneros como o memorialista, por exemplo. Como se disse, os elementos do cinema, do teatro e da novela alcançaram o conto e o romance e vice-versa. Desse modo, a narrativa passou a fazer coexistir em seu discurso os diversos níveis de fala, aproximando ainda mais o texto literário da vida cotidiana.
Música e literatura
O diálogo menos silencioso tem sido o da música com a literatura. Claro que a musicalidade sempre se interpôs como característica do texto poético, sobretudo na corrente simbolista. O “ritmo” atravessou todas as estéticas e, mesmo nas transgressões formais da primeira fase modernista, sobreviveu como condição essencial para a harmonia do poema. Embora essa constatação tenha sempre existido, poema e letra de música se mantinham com suas fronteiras determinadas, mesmo que tivessem uma estruturação formal parecida; era como se a letra fosse a “prima pobre” do poema.
O Tropicalismo
Entre os anos de 67 e 68, essa tênue linha de demarcação passou a ficar mais estreita com o surgimento de um movimento musical que levou a literatura a reboque: o Tropicalismo. O poeta Torquato Neto se tornou parceiro de Caetano Veloso com “Soy loco por ti América”; e, entre outros, de Jards Macalé, com “Lett’s play that”: (Texto I)
Trata-se, como se vê, de um exemplo vivo do tropicalismo na poesia, que é, na verdade, uma paródia do “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade: (Texto II)
Já esse poema de Carlos Drummond de Andrade seria parodiado, também, por Chico Buarque de Holanda, na canção intitulada “Até o fim”: (Texto III)
Fazendo escola
O movimento, liderado por Caetano e Gil, influenciou bastante a poesia dos anos 70, chamada, na época, de “Vanguarda Marginal”, de onde se tem o poeta Paulo Leminski e Cacaso como poetas-parceiros de alguns músicos importantes da Música Popular Brasileira. Difícil seria saber onde começava o letrista e terminava o poeta em cada um deles. Ou já era a poesia alargando seu território? A partir daí, a letra elevou seu status, a poesia desceu de seu pedestal e passaram a dividir o mesmo espaço.
Tracemos um breve percurso das incursões da literatura pela música. Quem não percebe a intertextualidade da música “Morro velho”, de Milton Nascimento, com os romances do ciclo da cana-de-açúcar de José Lins do Rego? Só para lembrar: Os romances “Menino de engenho, Doidinho” e “Banguê” têm o personagem Carlos Melo como protagonista e narrador.

No primeiro, ele é o menino órfão que se muda da cidade para a fazenda do avô e mistura-se com os moleques nativos, com quem brinca e vive inúmeras aventuras “inconsequentes”; no segundo, ele é conduzido ao internato e lá vive a sua adolescência estudando direito; no terceiro, ele retorna à fazenda, formado, mas completamente despreparado para a vida, e seus amigos de infância, sobretudo o moleque Ricardo, assumem seus papéis na hierarquia, tomam um rumo bem diferente do seu: “já não brincam, trabalham”. A música de Milton Nascimento é uma síntese dessa trilogia, o que me faz inferir a assimilação dessas leituras no processo de criação da letra.
E agora, José?
Seguindo outra inspiração, mas privilegiando também o texto poético, Paulo Diniz fez tocar no rádio o legendário poema “José” (do livro homônimo, publicado inicialmente entre os anos de 1941 e 1942), de Carlos Drummond de Andrade, denunciando a falta de alternativas no mundo moderno, evocando o homem desprovido de perspectivas, encilhado, assim, num beco sem saída.
Diniz, convivendo com as mesmas agruras na contemporaneidade, se tornou porta-voz das denúncias que o poeta mineiro fez no início dos anos 40.
A literatura portuguesa não fica à parte. Luiz Vaz de Camões teve, em pleno final do século XX, um de seus mais clássicos sonetos cantados pela juventude: “Amor é fogo que arde sem se ver”.
Os versos, compostos cinco séculos antes, foram adensados a alguns versículos da Carta aos Coríntios (Apóstolo Paulo - Bíblia Sagrada), a versos do próprio Russo e se tornaram um hino ao amor.
“Monte castelo” tornou-se, assim, presença obrigatória nas aulas sobre o Classicismo luso, quando se pretende mostrar, então, a atualidade da lírica camoniana.

TRECHOS
TEXTO I
“quando eu nasci / um anjo louco / muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco / era um anjo muito louco, torto / com asas de avião”
TEXTO II
“Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser guache na vida”
TEXTO III
“Quando nasci um anjo safado/ um chato dum querubim/ disse que tava predestinado/ a ser errado assim”
A intertextualidade entre música e literatura
Nosso Belchior, cujas letras de música já são poemas vivos, intertextualizou versos de Gonçalves Dias na canção “Aguapé”, que canta em duo com o cantor Raimundo Fagner no LP Objeto Direto, resgatando a memória de um dos mais líricos poetas do nosso Romantismo. O mesmo procedimento se encontra na sua “Divina comédia humana” (do LP homônimo), desta feita com os mais belos versos do parnasianismo brasileiro – “Soneto XIII” - constante do livro “Via-láctea”, de Olavo Bilac: “Ora, (direis), ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso!”. Belchior lançou, anos depois, um CD só com poemas de Drummond musicados, mas não teve qualquer repercussão, haja vista a falta de sintonia entre as melodias e os poemas.
A voz mais recorrente
Raimundo Fagner, entretanto, é quem mais tem investido no primor dos diálogos música-poesia. Aliás, seu espírito se coaduna perfeitamente com o seu tempo, já que tem como palavra de ordem do seu estilo a palavra de ordem das tendências das artes contemporâneas: ecletismo. O mesmo Raimundo Fagner que grava um “Rela Bucho” de Genésio Tocantins, numa valorização de nossas raízes forrozeiras, foi capaz de se sensibilizar (em 1982) diante do belo soneto “Qualquer música”, do “Cancioneiro” de Fernando Pessoa. O ritmo dado ao poema é de indescritível beleza.
O ponto de partida
Mas esse não foi o primeiro investimento do cantor cearense no texto literário. No seu primeiro LP, lançado em 1973 – “Manera Fru Fru Manera” - Fagner, ainda que na contramão dos créditos autorais, lanço mão de alguns versos do poema “Marcha”, “Quando penso em você / fecho os olhos de saudade / tenho tido muita coisa / menos a felicidade” - de Cecília Meirelles. Compôs uma das mais lindas canções de seu espólio: “Canteiros”, que intertextualiza, no final, um trecho da música “Na hora do almoço” (de Belchior) e “Águas de Março” (de Tom Jobim).
Em 1977 ele colocou melodia no “Epigrama no. 9” (no LP “Orós”) e no poema “Motivo”, (no LP “Eu canto”) ambos de Cecília Meireles: “O vento voa, / a noite toda se atordoa, / a folha cai”; e “Eu canto – porque o instante existe/ e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste / Sou poeta”.
A reiteração
Em 1980, ele, mais uma vez, foi buscar suas raízes nordestinas e gravou o épico-cordel Vaca estrela e boi fubá do poeta Patativa do Assaré, um dos maiores gênios autodidatas da poesia de cordel do Brasil. A partir daí, Patativa se tornou nacionalmente conhecido. No ano seguinte, Fagner e’stourou’ nas paradas de sucessos com o apaixonadíssimo soneto Fanatismo, do Livro de Soror saudade (1923 – 1a. edição) da poetisa portuguesa Florbela Espanca : (Texto IV)
Termina com uma música incidental igualmente bela, de Roberto Carlos: Meu querido, meu velho, meu amigo, mais precisamente com os versos: Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco, diante do que sinto. Florbela, até então somente conhecida pelos estudantes de letras e amantes da boa poesia, passou a ser cantada pelos quatro cantos do nosso Brasil. No mesmo LP, ele incluiu ainda o filosófico Traduzir-se (do livro Na vertigem do dia – 1980 – 1a. edição), de Ferreira Gullar, que dá título ao trabalho: (Texto V)
Em 1982, num LP totalmente gravado nos Estados Unidos, Fagner incluiu mais dois sonetos de Florbela Espanca: “Fumo”; e “Tortura” (Textos VI e VII, respectivamente) Este último foi também gravado pelo cantor Cauby Peixoto; (É neste mesmo disco que aparece o texto de Fernando Pessoa citado há pouco). Do mesmo livro de Florbela (de Mágoas), musicou Impossível – “Os meus males ninguém mos advinha... / A minha Dor não fala, anda sozinha...” - e gravou em pareceria com a cantora espanhola Ana Belén. Do Livro de Soror Saudade gravou ainda o lancinante soneto Frieza – “Os teus olhos são frios como espadas, / E claros como os trágicos punhais” - em duo com Amelinha, no LP de estreia dela.
Gullar, Mário, Sant’Anna
Em 1983 ele voltou a fazer dueto com Chico Buarque, desta feita na gravação do poema Contigo - “Canta comigo / este canto / que é feito de calma / e de espanto” - de Ferreira Gullar. No próximo ano, pôs música em Cantiga pra não morrer (também de Gullar) e lança-o com o nome Me Leve no LP A mesma pessoa. É, sem dúvida, uma das músicas mais emocionantes da discografia de RF – “Quando você for-se embora / moça branca como a neve / me leve, me leve”. Em 85, foi Mário de Andrade o contemplado, com a gravação de Semente, um poema bem distante da fase experimentalista do poeta; trata-se de um texto romântico, remanescente do tempo em que ele não havia ainda aderido às rebeldias instauradas pela Semana de arte moderna: “Os teus olhos distribuem / o que não existe nos meus/ a luz que os meus possuem / são as migalhas dos teus”.
Busca incansável
Irrequieto e obstinado em suas pesquisas musicais, e porque não dizer, literárias, Fagner gravou, em 1986, Rainha da Vida (de Gullar) que se tornou carro-chefe da trilha sonora de uma Minissérie da Rede Manchete, em que o cantor fez o papel de um padre. No mesmo LP, uma surpresa: Os amantes, de Affonso Romano de Sant’anna – “Os amantes em geral / são patetas, maus estetas / fazem versos ruins e são poetas, como eu” – cuja melodia mostra a perfeita adequação entre letra e música. É, para mim, o ponto mais alto do disco. Depois de algum tempo, mais precisamente em 1994, quando o LP Pedras que cantam foi lançado em CD – 2a. edição - nova surpresa: uma faixa bônus com o poema Menos a mim, de Gullar. Cinco anos após, no CD comemorativo dos seus 50 anos, em 1999, veio, entre as faixas bônus, o “Soneto I”, apêndice do Charneca em Flor, de Florbela Espanca: “Gosto de ti apaixonadamente, / De ti que és a vitória, a salvação / De ti que me trouxeste pela mão / Até o brilho desta chama quente”; a faixa é “ Chama quente”.
Depois, só em 2003, a sua prodigiosa parceria com Zeca Baleiro (outro poeta), RF resgata Torquato Neto e traz, outra vez um grande nome da literatura brasileira e a feliz possibilidade de tornar as nossas aulas ainda mais criativas e harmoniosas.
Em 2004, foi o poeta cearense Francisco Carvalho que inspirou o cantor. Ele incluiu no seu CD Donos do Brasil, três poemas de Carvalho: “O Bicho Homem”, “Esse touro vale ouro”, condensou “Reino” e “Minueto da Porta” numa só música. Em 2007, incluiu “Maria Luiza”, poema de Câmara Cascudo em seu CD Fortaleza.
Quintana e Baleiro
Já Manassés, no seu CD de 2010, colocou música no famoso “Bilhete” de Mário Quintana: (Texto VIII).<MC1> Esse, entretanto, não foi a primeira incursão da poesia de Quintana pela música: Para o Recital Canto Coral Quintanares, em 1993, o maestro Gil de Rocca Sales musicou treze poemas do gaúcho. O maestro Adroaldo Cauduro, em 1994, musicou poemas dele para o evento Cantando o Imaginário do Poeta e as peças foram exibidas pelas vozes do Coral Casa de Mario Quintana. (A. S.)
AÍLA SAMPAIO
COLABORADORA

segunda-feira, 26 de março de 2012

Meu Sertão


A chuva anda meio arredia 

pra bandas de cá 

Ah, mas quando chega 

é aquela festa da bicharada 

Não há jeito, mas os capotes 

insistem em cantar que '' tô fraco, tô fraco''

com toda a fartura que o inverno trás. 

Outros sons se misturam: 

o gado muge 

o sapo coaxa

o gato mia 

o cão late 

a ovelha bale 

o cavalo relincha 

o jumento azurra

a calinha cacareja 

a andorinha gazeia

a beija-flor arrulha

a cigarra silva

a coruja pia 

o pinto pia 

a rã coaxa 

a rouxinol trina 

o porco grunhe 

o periquito grasna ....

Nas cidades canta outros cantos: 

buzina de carros 

paredão de som

festas pra todos os lados....

Já dizia o poeta Patativa: 

''cante lá que eu canto cá''

Pra eu, o meu é mais harmonioso

Pois temos uma orquestra natural

Assim, é o Meu Sertão!


.

sábado, 24 de março de 2012

CEARÁ



Terra em que nasceu Moura Brasil/ O Jaguaribe com os seus vales encantados/ O mirante de Bastiões que é um presente da natureza /Os ventos do Norte na espera de bom inverno/. Um Sertão ainda dos sertanejos. Alencar transforma o mundo da AMERICA em IRACEMA /a índia que encanta todo o Ceará/ E sempre será a eterna '' virgem dos lábios de mel"./  Os verdes mares com seus ventos esperançosos/ E suas jangadas que desbravam em alto-mar . O humor que ganhou esse imenso Brasil/  Com Chico, Tom e Renato... Lugar de luz, fé e cultura. Esse é o nosso imenso Ceará!

 Margleice Pimenta

domingo, 18 de março de 2012

O país do Jaguaribe, no Siarah - Luciano Maia


Castanhão - Nova Jaguaribara - Ce 

Do País do Jaguaribe (jaguar-u-ipe?), com as primeiras incursões destinadas à conquista e ocupação do território a oeste do Rio Grande e da Parahyba, sem esquecermos as lutas no Siarah Grande, com os guerreiros de Mel Redondo, aquele Irapuã tão famoso; do País do Jaguaribe até o território kiriri, onde nasce a grande enxurrada que inunda os vales jaguaribanos, há um espaço de tempo e um tempo no espaço dignos de uma demorada observação.

A história do Vale do Jaguaribe comportou muita discussão e por certo ainda as comportará, partindo de agora, quando as comportas do Castanhão vão se abrir, trazendo uma água advinda dos sagrados mananciais celestes, que de quando em vez fazem chorar um choro de água muita sobre o nosso chão rude.

Franklin Távora (natural do País do Jaguaribe), com o seu juvenil trabalho, elaborou premissas e conjecturas sobre os nossos índios; Capistrano de Abreu enveredou também pelos mesmos caminhos de sertões e de outroras. E Raimundo Girão (outro jaguaribeiro), historiador arguto, fala-nos, outrossim, sobre este território, onde quem nasce traz uma marcada ancestralidade, também esta digna de uma demorada observação.

1603: partindo da Parahyba do Norte, o cristão-novo Pero Coelho aventurou-se para além do País do Jaguaribe, industriado, com certeza, pelas notícias de que havia, todavia, muita terra para além do Cotinguiba, esse marco de penetração do País Maior do Nordeste. Fracassou. Nada além de uma tentativa em Ararendá, na Ibiapaba, um revide vigoroso dos tocarijus e o posterior massacre dos insubmissos, indomáveis... A primeira notícia de uma seca medonha que se abateu sobre o Siarah ãtyguo.

O País do Jaguaribe, começando pela foz do rio da onça e subindo em busca do Cariri e dos Inhamuns, conhece um rio com cerca de 750 quilômetros de extensão. Interessante é verificarmos que este rio teve a sua nascente assentada por historiadores, geógrafos e cartógrafos como sendo a partir das águas que escorrem de oeste para leste em descendência da Serra da Joaninha, divisor de águas entre o Siarah e o Pihauhy. Tudo bem. Porém, não há como negar que as águas kiriris, que se juntam ao rio à jusante do boqueirão de Orós, são muito mais abundantes do que aquelas “dos irmãos do demônio”, as quais a custo vão se avolumando no imenso açude, enquanto as que passam pelo boqueirão de Lavras são uma enxurrada de respeito. E se vemos o rio no mapa, não será difícil supormos que as águaskiriris mereceriam, pacificamente, o epíteto de nascentes do Jaguaribe, vez que descem em linha reta em demanda do litoral... e assim, o Trici, o Truçu, o Carrapateira, o Bastiões, o Jucás e outros se apelidariam de afluentes. O Salgado, de Jaguaribe.

O País do Jaguaribe, belo país da minha infância, conta histórias ancestrais. Os chegados pela foz e pelo Apodi devem ter-se encontrado com os chegados pelo Araripe. De uma maneira geral, os chegados pela foz e pelo Apodi traziam memoranças de Pernambuco, do Rio Grande, da Parahyba e do mar; os chegados pelo Araripe nos contavam lembranças da Bahia, da Casa de Garcia d’Ávila. E aí, esses senhores de baraços e cutelos foram-se afazendando e povoando o nosso País. Já estavam, com certeza, afeitos às relações interétnicas nos canaviais de Olinda e do Recife e do Recôncavo. Mas aqui, em terras do Siarah, eles se indianizaram um bocado: os nossos irmãos ibiporas (habitantes da terra) tinham pela caça um tal fervor e pelas andanças mato adentro uma tal fascinação, que não foi difícil a esses senhores induzi-los a caçar rezes tresmalhadas, que eram muitas por aqueles tempos de meados do século XVII e início do século XVIII... Os ibiporas fizeram-se excelentes vaqueiros, de peitoral e gibão. De primeiro, houve muitas matanças, promovidas pelos capitães-mores contra os índios insubmissos. Valentia de índio contra fazendeiro armado de arcabuz só pode ter sido uma temeridade, fruto, por certo, de uma bela e altaneira indomabilidade.

Não é preciso que citemos os nomes dos matadores. Aqui vamos nos contentar com o relato dessa cruza de sangue ibérico com sangue aborígene, com uma pitada de sangue africano, mescla que resultou em nós, habitantes do País do Jaguaribe. O paisano do País do Jaguaribe é, antes de tudo, hospitaleiro; um pouco nostálgico, talvez quase meio triste e sem dúvida, valente.

Essas três características, em alguns de nós menos, noutros mais, somam o fenótipo do homo jaguaribanus. Em termos de aparência, é mesmo fruto dessa mestiçagem de que se falou, preponderando aqui para o ibérico, ali para o índio, acolá para o africano. Vale aqui, por certo, lembrar o nome de Luciano Cardoso de Vargas, cognominado o Abraão do Jaguaribe, em virtude de número de descendentes que deixou ao longo do de sua longeva existência e de quem se orgulham de descender os Maias do Vale do Jaguaribe.

Muito bem: foram esses homens e foram essas mulheres, povoadores do País do Jaguaribe, que nos contaram as histórias que eles mesmos viveram, de sangue e de sol, e que repercutem aqui e alhures, testemunho que são de uma luta tenaz e ininterrupta contra os elementos, numa região onde muitos rincões são de uma aridez desencorajadora e inóspitos aos mais temerosos dos castigos climáticos. Mas o nosso País do Jaguaribe ostenta, igualmente, vales fertilíssimos, onde vicejam o verde e a esperança.

E por mor de que ouvi, criança, relatos fantásticos advindos daqueles tempos heróicos de sertões passados e encobertos pelo manto do tempo-muito, só queria lembrar a de Pierre Labatut, fantasma assombroso deambulante da Chapada do Apodi e a da Carimbamba, aquela ave mítica de canto encantatório.

Escritores, poetas, romancistas, artistas, políticos, religiosos, publicistas de um modo geral e homens comuns, de uma severa dignidade, como lavradores e pastores de cabras, o País do Jaguaribe tem-nos oferecido, ao Brasil e ao mundo, em profusão.


*Luciano Maia, Mestre em Literatura Brasileira, Professor de História da Arte na UNIFOR, ocupa a cadeira 23 da Academia Cearense de Letras.

Fotos relacionadas ao texto 
Bastiões -Iracema- Ce 
Limoeiro do Norte- Ce
Fonte: Google 
Castanhão - Nova Jaguaribara - Ce 
Jaguaribe- Ce 
Boqueirão de Orós -Icó -Ce 

terça-feira, 6 de março de 2012

Outono


Minha flor de um belo jardim
Que derruba sobre a terra as suas folhagens
E o vento leva para bem longe
as suas sementes que irão germinar
n’algum lugar espirituoso.
A música de um violino a soar
pelas escadarias como nos castelos
medievais do Velho Mundo.
E, em seus aposentos, começam a meditar
na solidão lembranças ressuscitadas
De outros tempos.
Palavras ao vento são bem guardadas
desse outono glorioso
para a chegada bem florida
da primavera.



segunda-feira, 5 de março de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Tocar o céu




Tocar o céu com os dedos 

e, sempre rodeados de sorrisos
caminhar no mar 
e sentir o vento no rosto. 
Esperamos que os sonhos seja 
la esperança de ver o mundo 
mais justo entre as pessoas. 
..............................................
Toccare il cielo con le dita 
da sempre circondate da sorrisi
camminare nei mare
e sentite il vento nella faccia. 
Speriamo che i sogni  sia 
la speranza di vedere il mondo
più giusto tra le persone.

Fortaleza


Foto:   Raymundo Netto                    

Ainda eis uma "Belle Époche' !
Seus casarões antigos que resiste à modernidade 
com suas belas fachadas de cores vivas.
O céu cor de anil que brilha essa imensa 
Fortaleza com o seu mar verdejante que és 
''a loira desposada do sol, 
dormita à sombra dos palmares." *
Esculturas que embeleza o centro da capital 

de 'entes' que compartilham dessa história cultural 
com suas poesias, crônicas e romances.
 

Margleice Pimenta
* Francisco Paula Ney (Paula Ney) escritor cearense de Aracati/Ce (2/2/1858)
+ Rio de Janeiro, RJ, (13/10/1897)