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domingo, 1 de novembro de 2009

Veja como seria o encontro de Machado de Assis e Paris Hilton 

 

 

 



da Folha Online 11/01/09


Um dos contos mais conhecidos de Machado de Assis, "Teoria do Medalhão", conta a história de um pai que no aniversário de 21 anos do filho resolve lhe dar conselhos sobre a carreira e a vida. E o pai sugere, então, que o filho siga a carreira de medalhão, que nada mais é do que as pessoas que não pensam muito, não têm idéias próprias e que fingem ser sábios quando na verdade não o são. Tudo isso para chamar a atenção e ser reconhecido.
Em "Um Homem Célebre - Machado Recriado", da Publifolha, a autora Mariana Verissimo se baseia no conto "Teoria do Medalhão" e escreve receitas para ser "um medalhão" nos tempos de Machado e nos dias de hoje. Neste capítulo, a autora também imagina o encontro de Machado de Assis e de Paris Hilton, no hotel Copacabana Palace.
Leia abaixo trecho de livro que descreve este encontro inusitado.

*
Machado de Assis e Paris Hilton entram no bar
Muita gente não sabe, mas Machado de Assis, como imortal, tem o poder de ir e vir do lado de lá para o lado de cá, a cada dez anos, para "ver como andam as coisas". Pois não é que a sua última vinda aconteceu coincidentemente no mesmo horário e local em que Paris Hilton visitava o bar do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro? Naquela tarde de sol, entraram no bar ao mesmo tempo. A jovem americana magra e loira cercada de seguranças e fotógrafos chamou a atenção de Machado, que chegou a tirar seu pince-nez para observá-la com mais cuidado.
Enquanto Paris fazia poses na piscina, Machado procurou um lugar no bar de onde poderia continuar suas observações.
O velho garçom se aproximou:
- Bom dia, seu Machado. Quem é imortal sempre aparece!
- Bom dia, Adamastor. Quem não é visto, não é lembrado!
- Ah, só o senhor pra me fazer rir.
- Que bom vê-lo ainda por aqui e trabalhando. Você não mudou nada, talvez alguns fios de cabelo branco
- Os que sobraram, não é, doutor!?
- O mesmo de sempre?
- Sim, por favor. Mas antes me diga uma coisa: quem é aquela moça?
- Ah, seu Machado, aquela é a tal moça que ficou famosa porque o namorado colocou um vídeo dos dois fazendo safadeza na internet, pra todo mundo ver.
- Interessante.
- Interessante mesmo, se o senhor quiser eu lhe consigo uma cópia
- Não, não precisa, Adamastor.
- De um dia para o outro a mulher virou celebridade.
- Tão rápido?
- Ah, seu Machado, aqui agora é assim. Foi-se o tempo em que pra ser conhecido e respeitado o sujeito precisava fazer alguma coisa respeitável primeiro.
- Então sexo na internet faz a pessoa ficar famosa?
- Fazia, doutor, agora ninguém mais olha. É tanto que vulgarizou.
- Não me diga
- E digo mais, eu trabalho nesse bar há mais de 40 anos, já vi de tudo que o senhor possa imaginar que uma pessoa seja capaz de fazer para chamar a atenção dos outros e posso garantir pro senhor que não está fácil se levantar acima da obscuridade comum, como o senhor escreveu naquele texto seu.
- Você tem razão, não se fazem mais medalhões como antigamente
- Que saudades daquele tempo em que para se chamar a atenção bastava colocar uma melancia na cabeça.
- Bons tempos aqueles, Adamastor, bons tempos.
*
 
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