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domingo, 21 de novembro de 2010

Ensaio de Margleice Pimenta, publicado no caderno CULTURA, deste domingo, 21.11, do Diário do Nordeste, Fortaleza –Ce, sob análise do conto “Mariana”, de Machado de Assis. 

1ªPARTE: Especulações em torno do escravo e da escravidão

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21/11/2010 
Mariana e Coutinho são os personagens centrais no conto "Mariana", de Machado de Assis, publicado em 1871, no Jornal da Família, cujo enredo enfatiza uma problemática real da sociedade brasileira vivenciada na época da escravidão. A protagonista é uma escrava negra, que se apaixona por Coutinho, filho dos seus senhores
Na sociedade escravocrata, os negros levavam uma vida bastante diferente das demais pessoas por que eles não tinham os mesmos direitos e eram considerados mercadorias. Machado de Assis tem uma forma sutil de tratar essa questão em suas obras; mas, do seu jeito, denunciou os absurdos praticados no século XIX, em que o Brasil sustentava-se entre um regime monárquico, com as primeiras explosões dos republicanos, a escravidão e a busca de liberdade: (Texto I)

Do simulacro
As narrativas machadianas sempre aconteceram como um disfarce, para abordar temas que levantavam suspeitas para uma sociedade preconceituosa. As suas personagens sempre tomam rumos diferentes, principalmente as femininas devido ao seu romantismo e sua submissão, atitudes que eram frequentes na época.

As mulheres buscavam através do casamento um status e posição social, pois elas só tinham poder de decisão em assuntos relacionados a casa. A realização da mulher se dava através do marido e filhos.

No conto "Mariana", a jovem, ao perceber a impossibilidade de se realizar como mulher por ser escrava, prefere tirar sua vida a ficar sofrendo por um amor impossível, condenado pela sociedade. Machado de Assis trata, de forma exemplar, o tema da escravidão imposta no país. Nesse conto, o narrador é uma pessoa sem escrúpulo, regressando da Europa depois de 15 anos, encontra-se na corte com antigos companheiros de boêmia, sobre os quais "pesavam quinze anos de desilusão e cansaço, que começavam a embranquecer, mas na alma e no coração que estavam em flor" (ASSIS, 1871, p.82). É nesse contexto que Mariana se insere, com seu desejo impossível de felicidade.

A vida social
O narrador inicial do conto "Mariana" é o boêmio Macedo, que, após quinze anos de ausência, volta ao Brasil e fica extasiado com as mudanças arquitetônicas e comerciais, como apresenta esse trecho: (Texto II)

O narrador não apresenta nenhuma preocupação diante dos acontecimentos históricos que a sociedade brasileira vivia naquele momento. O que interessava era a diversão e a ´conversa jogada fora´, sem olhar para a consequências desses atos. A burguesia não se interessava em nenhum momento por aqueles que serviam como empregados, como os negros escravos.

Os rapazes, tomando alguns drinques, revelavam intimidades, fazendo intrigas e trocando pequenos segredos. Inescrupuloso, Coutinho confidencia, em tom de galhofa, que fora amado como nenhum outro homem: (Texto III)

O simulacro
Ele se vangloria, especialmente, da paixão violenta que provocara em Mariana, escrava, mulatinha, cria da casa, quase irmã, que crescera junto a todos da família, como uma filha. Já Macedo revela para os amigos as aventuras feitas pelo mundo afora, não ocultando detalhes do que ocorrera durante as viagens, os passeios feitos desde a Europa até o Oriente Médio, levando aos amigos a imaginar todas as suas andanças, tudo com as tintas de um convicto cabotino: (Texto IV)

O narrador demonstra levar uma vida de boêmio, sem se preocupar com o que esta ocorrendo no seu país de origem, o Brasil; o que lhe importa são as viagens, para que depois possa contar para os amigos as belas paisagens de lugares deslumbrantes. Embora tenha certo sentimento pela jovem "Mariana", Coutinho não esquece a sua condição (dela) de escrava e sente vergonha de demonstrar seu sentimento, considerando como iria apresentá-la à sociedade; a resistência seria enorme, por isso resolveu se calar e esconder seu sentimento.

A jovem apaixonada, consciente da sua condição de escrava, sabia que não era possível o seu amor e tentou encontrar uma solução para esquecê-lo, a morte: "Mariana caiu sobre a cama. Pouco depois entrava o inspetor. Chamou-se à pressa um médico; mas era tarde. O veneno era violento" (ASSIS, 1871, p.92).

Segundo Schwarz, (1997, p. 9). Machado de Assis revela que um escritor pode ser "o homem do seu tempo e espaço e do seu país". Ou seja, como um homem culto da sua época, o escritor estava atento a todos os acontecimentos da sociedade em que vivia. A literatura era uma forma de denunciar o que os senhores do poder faziam com aqueles que tinham menos posse, como no caso "os escravos", povo humilhado e maltratado pela sociedade.

Trechos
TEXTO IÉ tendo consciência desses "problemas" sociais e modalizando o agir das personalidades individuais que o nosso romancista alcança sua singularidade no processo de caracterização. Desse modo, a consequência que daí resulta é uma possível superação dos paradigmas realistas de composição textual, tendo Machado alcançado uma posição bastante particular com sua narrativa. (Costa Neto, 2008, p. 12)

TEXTO IITambém achei mudado nosso Rio de Janeiro, e mudado para melhor. O jardim do Rócio, o bulevar Carceller, cinco ou seis hotéis novos, novos prédios, grandes movimento comercial e popular, tudo isso fez o meu espírito uma agradável impressão. (ASSIS,1871 p. 82).

TEXTO III... antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem depois nem antes, e por nenhuma mulher fui amado jamais como fui... (ASSIS, 1871, p.83)

TEXTO IVNão lhes ocultei nada. Contei-lhes o que havia visto desde o Tejo até o Danúbio, desde Paris até Jerusalém. Fi-los assistir na imaginação às corridas de Chantilly e às jornadas das caravanas no deserto; falei do céu nevoento de Londres e do céu azul da Itália. Não me escapou; tudo lhes referi. (ASSIS,1871, p. 82).

Frase
"Quebramos amarras e construímos, no tempo, um outro tempo. Somamos braços, cabeças e pernas e nos fizemos uma. Somos filhas da força e da coragem, da crença e da paixão, do vento, do sol e do mar. Somos filhas do chão e do ar, do sonho e da dor"
GUARACIABA. B. LEALEscritora

Fique por dentroMachado de Assis

Rompeu com a estrutura linear da narrativa, revelando refinamento na linguagem, além de concisão e objetividade. De cunho psicológico, sua prosa investiga a natureza humana, vendo-a com pessimismo, niilismo, desmascarando a hipocrisia social. O adultério, o parasitismo social, o ciúme, o egoísmo, a vaidade, o interesse, a ausência de grandeza nos gestos humanos, as fronteiras entre a sanidade e a loucura, a ambiguidade são seus temas mais constantes. Em sua ficção, o narrador concentra-se nos movimentos psicológicos; quase não há meio físico, surgindo apenas se estiver vinculado a sensações psíquicas das personagens, - investigadas até a exaustão, a partir do humor, da ironia e do pessimismo. Os quadros narrativos compreendem fragmentos a partir de uma multiplicidade de fatos, quase sempre interrompidos pelas digressões, em geral filosofantes ou questionadoras acerca da natureza do narrado ou das personagens.

MARGLEICE PIMENTELCOLABORADORA*
* Aluna da Unifor

2ª parte:Os elementos da construção da personagem

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21/11/2010 
Mariana é uma jovem de 18 anos que, ao perceber que não se realizaria como mulher por ser escrava, tira sua vida; o casamento, em meados do século XIX, era considerado essencial para a mulher mudar de status e ser respeitada pela sociedade, e isso ela não teria com o homem que amava. O sofrimento de Mariana ia matando-a aos poucos. Diante do suicídio da moça, Coutinho declarou: "fiquei a olhar ainda alguns instantes para ela, sem compreender nem as lágrimas, nem o gesto, nem a fuga" (ASSIS,1871, p.85).

Machado de Assis soube representar em seus contos o perfil da mulher em uma época em que a passividade e a emoção faziam parte de seu cotidiano e que a única fuga para seus delírios, seria o casamento e, posteriormente, a constituição de uma família.

A verossimilhança
Longe da idealização romântica, Machado de Assis mostra, no conto em análise, a realidade de sua época, que culmina com a não realização de um grande amor devido ao status de escrava da protagonista: "não se trata de amores, que eu não posso ter amores. Sou uma simples escrava". (ASSIS,1871, p.86). Nesse trecho, que é uma conversa entre Mariana e Coutinho, percebemos que a jovem escrava tinha plena consciência de que seu grande amor não poderia ser concretizado e que sofria calada com medo de ser descoberta e sofrer alguma punição de seus donos.

Os perfis femininos
Machado de Assis, ao escrever sobre as mulheres e seus amores, retrata o perfil de cada uma delas, mostrando o mundo real. Ele estava ciente de que seu público seria feminino e se identificaria com o perfil de cada personagem abordada nos seus textos.

Mariana, por ser bonita e romântica, impressionava os leitores, e muitas jovens da época se identificariam com ela. Seus sentimentos e emoções fortes, seu desejo de amar e ser amada como qualquer outra mulher a tornava quase um ser real.

Podemos começar a descrever os aspectos físicos da personagem, uma moça bonita, que atraía os olhares masculinos: (Texto V)

Como se observa, a beleza de Mariana chamava a atenção não só de Coutinho, mas de todos que a conheciam, pois seu jeito natural e encantador eram facilmente percebidos.

Da sedução
Em relação aos encantos da moça, um tio de Coutinho, o senhor João Luís, indaga: "Por que diabo está tua mãe guardando aqui em casa esta flor peregrina? A rapariga precisa de tomar ar" (ASSIS,1871,p84), como a dizer que a sociedade precisava tomar conhecimento daquela beleza e Mariana precisava também viver a vida, ter mais liberdade em suas atitudes, suas vontades e desejos, como uma moça de sua idade, sem se preocupar da condição de "escrava". Mas, mesmo recebendo uma atenção maior por parte de seus senhores, ela continuava distante do que se passava no meio social, conforme as reflexões: (Texto VI)

Um ser à deriva
Mariana, de repente percebeu que sua vida não era o que ela esperava, queria casar e constituir uma família com o seu grande amor, no entanto tinha a consciência de sua condição de escrava e, por isso, se tornou tão revoltada, porque tinha sonhos que não podiam ser realizados. Mesmo sendo tratada com uma pessoa da família, principalmente por sua dona, ela se sentia triste, amargurada, sozinha. Ana Lúcia Richa afirma: (Texto VII)

De acordo com Richa, Machado de Assis traça muito bem o perfil da mulher do século XIX, onde deixa bem claro, qual era o papel desempenhado pela mulher à luz dos reflexos de uma sociedade que permeava os costumes tradicionais como o casamento, a que família deveria pertencer e também na escolha dos pretendentes e o seu meio social. A jovem "Mariana" fugia um pouco dos padrões desta sociedade, até pela questão de sua cor, e era tratada de uma forma diferenciada das outras moças da sua época. Não importava que já não fosse mais uma cativa.

A metamorfose
Ela vai se tornando enigmática; seu comportamento se modifica durante o transcurso do enredo. A jovem doce e dedicada muda completamente seu modo de agir diante dos obstáculos encontrados para sua tão esperada felicidade, se tornando agressiva e mais decidida nas suas ações e palavras, principalmente quando se refere a Coutinho: (Texto VIII)

Ele tenta arrancar a sua confissão, entender o mistério que envolvia a jovem moça, seus sentimentos que já estavam visíveis. Seja quem fosse o amor, o jovem dizia, ela estava livre para ser feliz, e ninguém da casa poria obstáculos em suas decisões. Em uma parte do texto, o rapaz, conversando com sua irmã, Inês, comenta que Mariana poderia estar apaixonada pelo cocheiro ou copeiro, mal sabia Coutinho que todo o mistério era o fato de se ele mesmo o seu verdadeiro amor da moça, e que, pela sua condição de "escrava", estava impedida de realizá-lo.

As suas ações estão relacionadas à revolta, ao desespero e ao grande amor por Coutinho, porque ela sabia que seu amor era impossível. O que restava era expressar as suas angústias com atitudes inesperadas e confusas. Mariana só descobriu seu interesse por Coutinho depois que a prima Amélia começou a frequentar a casa e, com isso, ficou enciumada quando percebeu a aproximação de ambos: "Fosse acaso ou fenômeno magnético, a moça olhava também para mim. Prolongaram-se os nossos olhares...ficamos a amar um ao outro". (ASSIS, 1871,p.84).

Quando começou o romance entre Amélia e Coutinho, para a felicidade de ambas as famílias, começou também a infelicidade de Mariana, pois, naquele momento, ela percebeu que não tinha mais esperanças em relação a seu amor, sendo escrava, e Amélia, uma jovem branca da sociedade; ela não teria como lutar de igual para igual, pois certamente perderia.

O desfechoNo entanto, a prima Amélia percebe o sentimento entre Coutinho e Mariana e rompe o noivado; mesmo assim, Coutinho não tem coragem de assumir o seu sentimento pela escrava, temendo as consequências que enfrentaria perante a sociedade, como no seguinte trecho do conto: (Texto IX )

Percebemos que a atitude de Coutinho diante da recusa de seus sentimentos se deve à pressão da sociedade e à vergonha que ele sentia, pois, na época, o escravo era tratado apenas como propriedade; e jamais pensariam os leitores em um romance entre um branco e uma negra, ou vice-versa.

Trechos
TEXTO V
Mariana aos 18 anos era o tipo mais completo da sua raça. Sentia-lhe o fogo através da tez morena do rosto , fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo voluptuoso, pé pequeno e mãos de senhora. É impossível que eu esteja a idealizar esta criatura que há tanta me desapareceu dos olhos; mas não estarei muito longe da verdade. (ASSIS, 1994).

TEXTO VIA discriminação histórica da matéria tratada é um requisito, no caso, da apreciação crítica. Tudo está em diferenciar ao máximo e não dissolver no arquétipo da menina pobre e do moço rico a particularidade sociológica do idílio. (SCHWARZ,1997, p. 83).

TEXTO VIIMachado traz para seus contos a delicada situação das mulheres do seu tempo, espremidas entre a necessidade do casamento e da família para se realizar e encontrar segurança social e, ao mesmo tempo, entre a necessidade de preenchimento de requisitos de ideal de mulher com atributos como a passividade, a submissão e a obediência. Por isso, se faz essencial observar a postura delas no que se refere ao estabelecimento de sua situação social. Isso passa, obrigatoriamente, pela observação do quanto ela se aproxima do ideal de mulher tradicional, de seu grau de altivez e atitude no jogo de relações sociais que levarão à sua felicidade frente ao personagem principal masculino.(RICHA, 2006, p.2)

TEXTO VIIIQue tens tu, Mariana? Disse eu; andas triste e misteriosa. É algum namorico? Anda, fala, tu és estimada por todos cá de casa. Se gostas de alguém poderás ser feliz com ele por que ninguém te oporá obstáculos aos teus desejos.
- Ninguém? Perguntou ela com expressão de incredulidade.
- Não falemos nisso, nhonhô. Não se trata de amores, que eu não posso ter amores. Sou uma simples escrava. És tratada como aqui como filha da casa. Esqueces esses benefícios?
- Não os esqueço, mas tenho grande pena em havê-los recebido. Que dizes, insolente?
- Insolente? Disse Mariana com altivez. Perdão! Continuou ela voltando à humildade natural e ajoelhando-se a meus pés; perdão, se disse aquilo; não foi por querer; eu sei o que sou; mas, se nhonhô soubesse a razão, estou certa que me perdoaria.(ASSIS, 1994, p. 5-6)

TEXTO IXConfesso, entretanto, que, apesar de não de compartilhar de modo nenhum os sentimentos de Mariana, entrei a olhar para ela com outros olhos. A rapariga tornara-se interessante para mim, e, qualquer que seja a condição de uma mulher, há sempre dentro de nós um fundo de vaidade que se lisonjeia com a afeição que ela nos vote. Além disto, surgiu em meu espírito uma ideia, que a razão pode condenar, mas que nossos costumes aceitam perfeitamente. Mariana encarregava-se de provar que estava acima das veleidades.
(ASSIS, p. 8, 1994)

3ªparte:O espaço, o tempo e os referenciais do real

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21/11/2010 
O conto "Mariana" nos mostra que, em 1871, já havia certa mudança em relação ao escravo. O comportamento da escrava perante o senhor, o rompimento da prima Amélia quando percebe um sentimento entre Coutinho e Mariana, a perda de controle dos senhores sobre a escrava, quando ela tenta fugir, são indícios de transformações na sociedade. Oito anos depois da publicação dele, 1888, foi assinada a Lei Áurea: (Texto X)

Os ventos
A sociedade começava a demonstrar abertura para mudanças que, ao longo dos anos, se comprovaram no comportamento das pessoas que se viam, então, diante de novas ideologias e valores. Sabemos que foi um período muito difícil na sociedade brasileira, porque já vínhamos de décadas de escravidão, humilhação e subordinação. Tudo era novo e causava medo; a maioria das pessoas não sabia como reagir, mas, aos poucos, o pensamento foi mudando e se identificando com o momento de libertação do povo escravo: (Texto XI)

O personagem Coutinho se mostra vaidoso pelo fato de Mariana demonstrar-lhe afeição e, ao mesmo tempo, remorso pelo sumiço desta, já que está de casamento marcado com a sua prima. Subitamente, sai à procura da moça, suspeitando que alguma tragédia que pudesse ocorrer, e ele fosse o principal responsável. Em época anterior, o ´patrão´ sequer levaria em consideração os sentimentos de uma escrava, sequer pensaria em sentir remorso por qualquer atitude em relação a ela.

O feminino
Schwarz (1997, p. 132) toca fundo na situação da mulher ao considerar que as personagens femininas de Machado de Assis "casavam novos temas da filosofia europeia do inconsciente à situação histórica da elite brasileira, condenada, pela circunstância, a tomar liberdades com a lei". Não somente nos romances podemos perceber isso, as mulheres dos contos também parecem presas a uma ideologia e, acima de tudo, tentavam se libertar de uma condição subordinada. Mas, também é percebível nos contos em que as mulheres sofriam preconceitos. No caso de Mariana, a "cor" foi determinante no desfecho trágico, pois a união de uma negra com um branco causaria impacto na sociedade.

O eu e os outros
Mariana percebe que está muito difícil viver na mesma casa com Coutinho. A melancolia da moça a fez ir em busca do seu amado, atitude que demonstra a vontade que ela sente de que ele descubra por quem está apaixonada: (Texto XII) A jovem sofre pelo desprezo do seu amado. A única saída que encontrou foi ir-se de casa, pois não suportava mais a situação e estava disposta a sofrer as consequências dos seus atos.

Diante de tanto sofrimento e tristeza, ela percebeu que não tinha esperanças de conquistar e viver seu grande amor, pois os obstáculos seriam muitos e para toda a vida. Decide, então, em um ato de loucura e desespero, tirar sua própria vida. (Texto XIII)

Nessa conversa tensa entre Mariana e Coutinho ficam claras as intenções dela. Ele tenta sem sucesso fazer com que a jovem não faça nada contra si mesma, e que retorne para casa, de onde nunca deveria de ter saído sem ordem de seus senhores. Para ela, não existe mais saída a não ser a morte. Ela, então, consume o ato e, assim, se liberta do sofrimento da rejeição e das penalidades que o amor impossível lhe poderia impor.

Realidade e ficção
No conto "Mariana", publicado em 1871, ele mostra, por meio da protagonista, como era viver em uma sociedade marcada pelo preconceito. A jovem escrava se apaixona com Coutinho, filho dos seus senhores, mas esse amor é impossível, pois, apesar de estar na como uma branca, "quase senhora", era apenas uma mulher escrava. Para a sociedade isso jamais mudaria.

A beleza dela, bem como o fato de ser admirável pelo comportamento, não a faz digna do rapaz que, embora demonstre nutrir algum afeto por ela, se recusa a admitir o fato. As convicções e os valores conservadores estão arraigados à sua conduta do colonizador, senhor, que deveria casar-se com uma moça branca da sociedade.

Jogos de armar
Do seu lado, Mariana sufoca seu amor, mas passa a não mais conseguir administrar suas emoções, quando o vê namorando sua prima. Numa época em que a mulher era submissa e passiva e que seu único desejo dela era constituir uma família, ela se encontra condenada a um sentimento unilateral e entende que realização de seu sonho não era possível.

A jovem moça decide fugir da maneira mais trágica possível. Coutinho desconfia das intenções dela e tenta impedir que ela pratique aquele ato, o "suicídio" mas, não consegue. Antes de morrer, Mariana diz o seguinte: "Nhonhô não tem culpa: a culpa é da natureza" (ASSIS,1994, p.13), com essas palavras tirando qualquer sentimento de culpa que Coutinho pudesse sentir. Ela cede ao determinismo trágico dos condenados a não serem felizes. Ela chega ao seu limite de seu sentimento quando tem certeza de que, se fosse uma mulher branca, teria um final feliz como em um conto de fadas: "e viveram felizes para sempre...". Depois de tudo transcorrido, Coutinho conta toda essa história para os seus amigos, se vangloriando de ter sido amado. Para ele, foi apenas "um incidente" (ASSIS, 1994, p.13). O conto "Mariana", pois, é o registro de como a mulher negra era vista pela sociedade escravocrata. A morte figura, então, como a liberdade possível já que a vida lhe nega a condição de libertar-se da herança atávica .

Trechos
TEXTO XO próprio foro íntimo, âmbito prestigioso e universalizado onde a discrepância se faz sentir, no caso tem um quê
deslocado; talvez fizesse parte do equipamento do homem atualizado a mesmo título que os charutos e a casaca estrita. Seja, como for, contestada pela escravidão epelo paternalismo ambientes, a ênfase nos princípios imprime aos atos masculinos alguma coisa risível, algo que excede a psicologia dos sexos e configura um dos modos
básicos de viver a problemática da classe dominante nacional. (SCHWARZ, 1997, p.129).

TEXTO XI
Parecia-me natural, e agradava-me ao espírito, que a rapariga tivesse fugido para não assistir à minha aventura, que seria realidade daí a oito dias. Mas a idéia de suicídio veio aguar-me o gosto; estremeci com a suspeita de ser involuntariamente causa de um crime dessa ordem; impelido pelo remorso, saí apressadamente em busca de Mariana. (ASSIS,1994, p.8).

TEXTO XII
[...]Eram oito horas da noite quando cheguei à porta da casa. A três ou quatro passos estava um vulto de mulher cosido a parede.Aproximei-me: era Mariana.Que fazes aqui? Perguntei eu.- Perdão, nhonhô; vinha vê-lo.- Ver-me? mas por que saíste de casa, onde eras tão bem tratada,e donde não tinhas o direito de sair, por que és cativa?- Nhonhô, eu saí por que sofria muito... [... ]
- Tranquiliza-te, Mariana,disse eu, alguém te seduziu para fugir?
Esta pergunta era astuciosa; eu desejava apenas desviar do espírito da rapariga qualquer suspeita de que eu soubesse dos seus amores por mim.Foi desastrada a astúcia. O único efeito da pergunta foi indigná-la.- Se alguém me seduziu? perguntou ela; não, ninguém; fugi por que eu o amo, e não posso ser amada, e sou uma infeliz escrava. Aqui está por que eu fugi. Podemos ir, já disse tudo. Estou pronta a carregar com as consequências disto. (ASSIS, 1994, P.8-9)

Texto XIII
Que escondeste aí? perguntou eu.
-Nada, disse ela.
- Mariana, tu tens alguma idéia terrível no espírito...Isso é alguma arma...}
_ Não respondeu ela.
Dá-me o que tens aí.
Ela contraiu um pouco o rosto. Depois, metendo a mão no bolso, entregou-me o objeto que lá havia guardado.
Era um vidro vazio.
- Que é isto Mariana? perguntei eu, assustado.
- Nada, disse ela; eu queria matar-me depois de amanhã. Nhonhô apressou a minha morte; nada mais.
- Mariana! exclamei eu aterrado.
-Oh, continuou ela com voz fraca; não lhe quero mal por isso. Nhonhô não tem culpa - a culpa é da natureza. Só o que lhe peço é que não tenha raiva, e que se lembre algumas vezes de mim...
(ASSIS, 1994, p. 12-13)

Saiba mais
ASSIS, Machado de. Mariana. In Obra Completa, vol. II Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
COSTA NETO, A. A. O modo de caracterização das personagens machadianas.
II SIMPÓSIO DE PESQUISAS EM LETRAS DA UNIOESTE. ANO 2008.V.1.
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. 11ed. São Paulo: Ática, 2006.
MONTEIRO Angélica e Leal Guaraciaba B. In: Mulher; da luta e dos direitos. Brasília: Coleção Brasil, Instituto Teotônio Vilela. 1998.
RICHA, Ana Lúcia Guimarães. As personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis. 2006. Disponível em:http://www.idelberavelar.com/abralic/txt_24.pdf.2006.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 3 ed. São Paulo: Editora 34, 1997.
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