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sábado, 1 de setembro de 2012

Cultura ENSAIO A poética de Aíla Sampaio (04.08.2012)

A vida nunca se faz plena como se um passe de mágica estivesse por trás das aparências
A eternidade não depende do tempo, mas do desejo com que buscamos possuir a plenitude das coisas. Existir não é o mesmo que viver, assim como escrever é possuir o indizível da língua, e, assim, traduzir também o seu mistério, em face da sua transcendência. De Olhos Entreabertos, os escritores costumam conversar com as estrelas, representar o brilho dos cristais e acolher em seu texto a solidão dos que vegetam enquanto o cosmos agoniza. Leia-se o poema "Tela":

(Texto I) O ato da criação literária é o mais atomizado de todos os processos de representação da arte; é o mais denso e o mais sagrado de todos os prazeres do corpo, e é a forma mais sólida de representação do mundo perante os apelos da história. A pós-modernidade compreende o oblívio de Deus substituído pela ilusão do Capital, como se a mercadoria fosse capaz de intuir o sentido supremo do sagrado; como se a estética do gosto fosse superior à estética da arte, como se o sagrado fosse assim, capaz de sucumbir diante da sedução do efêmero.

A arte da palavra
As marcas e as grifes são apenas miçangas ou enfeites de uma civilização em ruína, esmagada pelo consumo e pela tentação do capital e das suas formas miseráveis de alienação e acumulação. Vejam-se, então, os versos de "Desvarios de maio":

(Texto II)

Assim sendo, urge que a arte, a arte mais sutil e prazerosa, a arte mais pura e a mais sofisticada assumam o seu lugar no discurso do caos, para que a linguagem poética e a sua liturgia possam reconquistar o espaço soberano do texto. A representação da poesia nunca perdeu o seu lugar na história. Na era em que o homem mais decididamente mergulhou na guerra, em nome da ilusão do mito, Ulisses ressurgiu como o herói de todas as idades; e quando o céu e o inferno se fundiram na idade escura da magia, Dante segurou a mão de Virgílio e nos devolveram, por fim, a claridade, o sentido poético da alegoria e a escansão do verso refletido. Os tempos de enfrentamento da linguagem agora são outros, mas a poesia está sutilmente em toda parte. Poetas existem no mundo de todas as maneiras, e poetas ruins é o que não falta em todos os quadrantes do globo. O Ceará é uma terra povoada de muitos escritores e de Academias que não valem o preço com que foram feitos os seus estatutos, mas é também uma terra de veras escritoras, da estirpe de Ana Miranda, Marly Vasconcelos, Natércia Campos, Inez Figueredo, Giselda Medeiros e Tércia Montenegro, dentre outras.

A essa elite de escritoras de talento pertence o nome de Aíla Sampaio, que conheci ainda por ocasião da sua estreia, e cuja evolução venho acompanhando com respeito e curiosidade, porque profícua a sua produção, porque profundos os seus conhecimentos, porque sincero e visceral o seu compromisso com a palavra ritmada e com a palavra fundadora do belo. Como, por exemplo, nos versos de "Silêncio antigo": (Texto III)

Depois de chamar a atenção do público, com a sua tese de mestrado sobre os mistérios de Lygia, e de esquadrinhar as vozes da sua escritura sutil e polifônica, Aíla entrega-se agora à sedução da poesia, abrindo o seu baú de desejos e expondo totalmente aos ventos a vertigem fatal da sua poética fulgurante. E, por entre curvas e desvios, Aíla Sampaio vai construindo a sua arte, tecendo as suas teias, e mergulhando na sua solidão compartilhada, entretendo os seus leitores com a força aliciante da palavra e da sua beleza metafórica.

Das temáticas
A poesia de Aíla Sampaio, nesse seu livro, de título sugestivo, faz-se a um só tempo verbo e escansão, solidão e reticência, e purgação da morte em face da libido do tempo.

O amor, a comunhão a dois e a busca incessante de Eros, para aplacar os desafios da vida e os sentidos cambiantes do corpo, se entrelaçam, nesse livro novo de Aíla Sampaio, como se fossem os seus esteios de maior destaque. Leiam-se os versos do poema "De outro tempo": (Texto IV)

Eis, portanto, De Olhos Entreabertos (Fortaleza, Editora Sponti, 2012), um livro cuja linguagem nos seduz, um livro que dignifica a sua autora e que não desmerece a ensaísta. E que faz da sintaxe do desejo (e também do verso refletido) o espaço poético da arte literária.

O QUE ELES PENSAM
"Na poesia de Aíla Sampaio, uma das marcas mais expressivas reside no cultivo de metáforas entrelaçadas a impressões sensoriais".
CARLOS AUGUSTO VIANAEscritor

"Nesse livro, o tema do amor, explorado sob múltiplos ângulos, abre caminho para a reflexão sobre a própria fragilidade do ser humano".
JOSÉ TELLESPoeta

Trechos
TEXTO I
O tempo costura a vida com pontos de cruz, / fazendo desenhos multicores no véu dos dias. / Na tela em que meu destino foi bordado, / não há manchas de dedos / nem frouxos alinhavos / desfazendo a harmonia. / Nasci, certamente, das bordadeiras de sonhos / que tecem lenços azuis todas as manhãs / para que a realidade, com seu duro fardo, / não pesponte escuridão onde o traço é de luz.

TEXTO II
Desse olhar esgarçado sobre o poente, / dessa lamúria que é o vento antes da chuva, / fiz a tarde com seus desvarios de maio. /// Não fosse hoje um domingo qualquer / eu teria motivos para não ler nada / e veria TV, bandeira branca a meio-palmo / e mansidão para seguir as procissões de Maria. / Mas não é assim o meu desenho / tão fácil de distinguir as cores e as linhas / rascunhadas. /// Surpreendem-me vontades de sesta, / sono profundo ao meio-dia / e saudades que não posso mais matar. / Tanta abstinência, tantas orações / e o coração não sara... / continua a sangrar ao menor esforço / e a me matar aos poucos todos os dias.

TEXTO III
Há sempre uma casa / com seu silêncio antigo / e seus conhecidos fantasmas / a nos habitar. / Há sempre a memória / de um amor interdito, / a dar a ilusão / de que a felicidade está / apenas / no que poderia ter sido. /// O tempo vivido desliza, / guardando abismos que / devoram a carne do tempo. / O que nos pertence / é apenas o presente / e a certeza de que eterno / é somente o que não se realiza.

TEXTO IV
Essa casa desabitada / perdida no abandono dos ventos / (que sopram sem direção) / é o corpo que veste a minha alma. / Suas portas batem / atrás de um adeus sem data, / cavando feridas nas paredes retintas, / guardando ferrugem nas trancas / e escoriações nos portais. /// Há hera nas vigas e nos muros, / fechando porteiras, lacrando janelas / até sempre ou nunca mais. /// No jardim, presente e passado / perdem-se soterrados / pelo musgo que cresceu. /// Dentro de mim, acordado, / geme um silêncio de muitas eras / e grita a lembrança de um tempo / que não é o meu.

DIMAS MACEDOCOLABORADOR*
*Da Academia Cearense de Letras

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1166531


ENSAIO

Aliança com a sensibilidade


Da leitura do livro "De olhos entreabertos", de Aíla Sampaio, brotaram essas reflexões
Existem aqueles que parecem ter feito uma espécie de trato com a superficialidade em algum trecho do caminho, mesmo que muitas vezes sequer percebam a existência desse acordo tácito durante uma jornada inteira.

Atitudes
Para honrar tal compromisso, caminham pela vida a quarteirões de distância da possibilidade de contato com os próprios sentimentos, sejam lá quais forem, e com os alheios, sejam lá quais forem. Amordaçam ternuras. Amarram desejos. Ensurdecem o olhar. Abafam o chamado sincero da alma para os voos mais charmosos e os mergulhos mais enriquecedores. Para honrar tal compromisso, fecham o coração com todo tipo de tranca disponível toda vez que pressentem a ameaça de se tornar vulneráveis às emoções mais vívidas. Fecham porque sabem em algum lugar deles próprios que isso implica arriscar-se a experimentar as dores mais profundas, embora, invariavelmente, de uma maneira ou de outra, elas aconteçam para todos aqui, ali, mais adiante. Fecham, sabedores ou não de que sentir, igualmente, é condição para arriscar-se a experimentar as alegrias mais intensas.

A outra face
Mas existem também aqueles que parecem ter feito uma espécie de aliança com a sensibilidade em algum trecho do caminho, não é raro desde o comecinho dele. Olhar vasto, encantos à flor da alma, mãos prenhes de cultivo, paixões em flor, abrem o coração à preciosa oportunidade da vida e suas possibilidades, ainda que ela não ofereça garantias a ninguém, seja lá de dor ou de alegria.

Ao buscar leveza e coerência na lida com os próprios desejos, arriscam-se à profundeza, arriscam-se à intensidade. Arriscam-se a fazer contato com os próprios sentimentos, sejam lá quais forem, e com os alheios, sejam lá quais forem. Para estes, não é possível saber o sabor da temperatura das ondas, dos perigos e das delícias do mar sem arredar o coração do território aparentemente seguro da areia. Sem levar o corpo e a alma para o experimento intransferível da água. Foi destes, especialmente, que eu me lembrei com nitidez durante a leitura dos poemas do novo livro de Aíla Sampaio, De olhos entreabertos. Leiam-se, por exemplo, os versos do poema "Retrato antigo": (Texto I)

Os poemas de Aíla são belos. São intensos. São voo e mergulho. São imagem e silêncio, linhas e entrelinhas da vívida poesia da poesia de quem vive. Eles me contaram um monte de coisas; algumas, por empatia, fizeram meu coração marejar. Eles me contaram da dor e da alegria. Do vigor e do cansaço. Das ondas saborosas e dos caixotes que machucam, riscos de quem se arrisca entrar no mar e sabe, por lealdade à própria natureza, de que graças ao sabor e apesar do desconforto, continuará a entrar. Eles me contaram dos verões, dos outonos, dos invernos, vividos todos, e cada um deles gestando, do seu modo, primaveras.

Eles me contaram do perene movimento de busca, encontro, desencontro, desencontro no encontro, encontro no desencontro, busca. Não necessariamente nessa ordem, tampouco em ordem alguma, que vida, na prática que desconhece calendários e relógios, não é afeita a obedecer linearidade, sentimento muito menos: "A primavera não voltará": (Texto II)

Viver é vastíssimo, sentir é vastíssimo, e o emprego redundante do superlativo, neste caso, não é por acaso. Viver, sentir, é para quem tem coragem vastíssima. No poema "Unguento", Aíla Sampaio diz uma verdade linda: (Texto III)

Que fortaleza nesses versos: " Amor deve ser unguento, não ferida." Deve, sim. Eu me recuso a desistir de acreditar que esta é a ideia transformadora, feliz, potencial e vasta do amor. E é na busca desse bálsamo, que principia no lume corajoso do nosso próprio ser, que aqueles de nós que não têm trato com a superficialidade arriscam todo dia arredar o coração da areia. Arriscam todo dia entrar no mar. 

Trechos
TEXTO I
Não tenho mais o teu rosto fixo na memória / como um retrato na moldura. / Despencou parede abaixo, / estraçalhou-se no assoalho manchado / dos desejos não-satisfeitos. / Restou o papel encardido de esperas / com a irreconhecível fisionomia / de um homem antigo / cujos olhos não mais se reconhecem. /// São assim as terras por que pisamos inseguros / e das quais voltamos de mãos vazias: / terra apenas, sem flores nem água; / é assim o rosto que já foi amado / quando entra no território do esquecimento: / uma fisionomia borrada apenas, mais nada.

TEXTO II
Quando caírem as últimas folhas do outono / talvez tu te lembres que a primavera / não poderá voltar. / Terás uma lembrança, um retrato talvez, / mas não o amor que eu te dei / e que deveria durar para sempre. / Talvez tu sintas saudade / mas já não poderás matá-la; / talvez queiras de volta as flores / mas já não haverá semente / nem terra onde plantar teus olhos distraídos. / Terei partido num descuido teu qualquer, / sozinha, na noite escura ou ao sol poente, / levando o sentido e as cores da vida / que, nem percebias, / estavam o tempo todo comigo.

TEXTO III
Amar é ficar pelo avesso / corpo descarnado ao léo / suportando o vento. / Ser em carne viva, / e amar quem se arma / com punhal ou palavra / é vício de sofrimento, / não é vida. / Amor deve ser unguento / não ferida.

SAIBA MAIS
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Cultrix, 1977

MOISÉS, Massaud. A criação literária - poesia. São Paulo: Cultrix, 2000

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1990

SAMPAIO, Aíla. De olhos entreabertos. Fortaleza: Sponti Editora, 2012

ANA JÁCOMOCOLABORADORA*
*Escritora

Uma aposta fremente na vida
Aila Sampaio, poetisa de corpo inteiro, olha - contempla, considera, vê - para depois as descrever, as vias pelas quais o grande segredo do mundo e da vida vem até ao universo do poeta. Ele pertence a todos os humanos, mas acontece que pelas razões da existência, que são um pouco misteriosas, só alguns o conseguem fazer viver. Fazer viver mediante a escrita, que muitos cultivam, mas nem todos alcançam na sua justa dimensão.

Há nessa escrita, que é um continente muito real, uma parte de naturalidade e outra de estranheza - e ambas se unem ou se fundem na matéria específica que são os poemas. O poeta é simultaneamente o demiurgo e o humano demasiado humano que atravessa tanto os lugares de dor como os de alegria completa. Daí que enquanto hacedor (hacedora, neste caso) ele faça comparecer naquilo que as palavras, a escrita, lhe dão, todas as certezas e todas as dúvidas, que é essa a busca que aos verdadeiros poetas fundamenta.

No caso presente, (da leitura do livro de poemas "De olhos entreabertos") a exposição dos sentimentos mais íntimos, os grandes haustos dum silêncio com-participativo e duma voz que, por íntimo pudor, se coloca numa penumbra tanto quanto se revela nos seus momentos de felicidade e lume, é a substância e a matéria duma comoção, pois que é dado ao poeta falar, mas não falar para que tudo continue na mesma e sim porque o que se procura é, exatamente, uma transfiguração. Da vida, da existência de quem escreve e, por último, de quem lê, o universo desses potenciais leitores para que aponta o desejo de permanência que é o que certifica a Poesia que existe para valer.

E assim se entende que em Aíla Sampaio, como em todos os verdadeiros poetas, os poemas não são um álibi, uma estratégia de domínio ou de afirmação mundana, uma arma para estabelecer poderes espúrios, mas sim uma aposta fremente na vida que lhe foi dado viver.

Duma forma que tenho por íntima e solene, mas doada, a autora deste livro expõe-se tanto quanto nos expõe a nós. Porque, ao sermos assim leitores, irmanamo-nos na sua conquista de mais luz - essa luz com que os poemas, pequenas fogueiras brilhando na negrura dos tempos, afixam a sua transmutação, a sua fome de beleza e a sua certeza dum futuro encontrado. Um alumbramento. 

NICOLAU SAIÃO
COLABORADOR*
*Escritor português

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1166542
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