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domingo, 4 de abril de 2010

Entrevista - O mundo por escrito

Foto - Deyvison Teixeira

A escritora cearense Tércia Montenegro lança três títulos infanto-juvenis durante a Bienal do Livro, entre eles, a biografia Rachel: o mundo por escrito

Talvez tenham sido as 84 páginas mais difíceis da vida de Tércia Montenegro. Foram muitas versões, textos jogados fora, horas na frente do computador até a autora deixar pronto Rachel: O Mundo por Escrito (Edições Demócrito Rocha). O livro, que será lançado no dia 14 de abril, na IX Bienal Internacional do Livro do Estado do Ceará, é um diário inventado no qual a adolescente Rachel de Queiroz teria confessado suas ambições e sonhos ao terminar O Quinze, seu romance de estreia. Narrado em primeira pessoa, o volume - pensado para o público infanto-juvenil & traz Rachel enchendo caderninhos pautados à luz do lampião e tecendo planos de sucesso.

Para escrever como se fosse a própria Rachel, Tércia mergulhou nos romances, memórias, crônicas e até nas receitas culinárias da fazenda onde a escritora viveu. ``Eu tinha de me tornar íntima dela, pensar como ela, no plano da suposição, claro, e atuar como ela através da escrita.``, explica, em entrevista ao Vida & Arte Cultura. Autora dos livros de contos O Vendedor de Judas, O resto de teu corpo no aquário e Linha Férrea, a escritora cearense de 33 anos recebeu a equipe do O POVO no apartamento onde mora, na rua João Cordeiro. Ela falou a respeito da novíssima geração de escritoras cearenses, do mercado do livro e até sobre um romance não-publicado que guarda a sete chaves.

Além de Rachel: O Mundo por Escrito, Tércia Montenegro também lança Cores de Gatos e Rosas (Conhecimento) e Instruções para Beijar (Sete Letras), destinados ao público infanto-juvenil. A escritora também está preparando outros dois títulos voltados para a mesma faixa etária, ainda sem data para publicação. ``Nunca escrevi pensando em leitores de 13 anos de idade, mas é lido, é aceito, é compreendido, então, acabou pegando``, diz a autora que teve o livro de estreia, O Vendedor de Judas, incluído na grade curricular de escolas particulares de Fortaleza. (Juliana Girão)


O POVO - Como foi a pesquisa para escrever o livro Rachel: O Mundo por Escrito?
Tércia Montenegro - Achei um desafio porque eu tinha que me impregnar da linguagem dela. Fui atrás das primeiras crônicas que ela tinha escrito ainda jovem e já tinha uma linguagem realmente muito marcada pela ironia, perspicácia. Não era uma linguagem ingênua. Já era uma autora bastante madura. Eu queria usar um pouco do vocabulário que ela usava naquele momento. Havia essa noção histórica que era importante conservar não só pelos fatos, mas pela linguagem também, e colocar isso na medida certa para não ficar uma coisa empoeirada. Foi um trabalho de achar a medida certa e muita reescrita. Foi um dos livros que mais me deu trabalho de fazer.

OP & E não é um livro longo.
Tércia & Foram muitas versões, muita coisa jogada fora. ``Não achei o tom``. ``Por onde começar?`` ``Como escrever certos episódios?`` Muitos episódios da vida dela, por exemplo, seriam projeções. Como o casamento. Ela não tinha se casado ainda. Fiquei pensando em como achar soluções que não fossem inverossímeis. E a Rachel não era uma pessoa religiosa e eu não poderia cair nessa questão da espiritualidade, do presságio.

OP & Como foi escrever como se você fosse ela?
Tércia & É como se fosse um pouco teatral. Como se eu tivesse que encenar a Rachel de Queiroz. Eu tinha de me tornar íntima dela, pensar como ela, no plano da suposição, claro, e atuar como ela através da escrita. Tentando escrever como ela escreveria se tivesse tido um diário. É muito inibidor porque a Rachel de Queiroz foi uma grande escritora. ``Poxa, que ousadia a minha tentar entrar no ritmo que ela desenvolveu``. Não era uma obra só minha. Era uma obra minha, mas inspirada nela. Então, eu não estava totalmente livre.
OP & Deu medo?
Tércia & Claro. Medo de desrespeitar, de não estar à altura, de criar uma imagem que não era a verdadeira dela. Mas, ao mesmo tempo, por se tratar de um diário imaginário, me deixou mais à vontade. A Rachel não era uma fã de diários, não tinha prática de se confessar, era antipática com a figura do biógrafo. Essa foi a margem de liberdade que eu tive. Escrever um romance à maneira de Rachel de Queiroz seria o cúmulo, o absurdo.

OP & Você diz que teve de se tornar íntima dela para escrever o livro. Além de escritora e nordestina, que outras características em comum encontrou entre você e ela?
Tércia - Encontrei mais diferenças. É difícil falar sobre isso porque eu não convivi com ela em pessoa, apenas através dos livros, mas, em termos de temperamento, ela passa a imagem de quem foi realmente forte, decidida. Com certeza, ela deveria ter suas crises interiores, mas ela não parecia se deixar abalar. Parecia ter um projeto em mente e persegui-lo sem dispersões. Eu sou mais receosa, mas tímida, mais escondida até. Foi um esforço muito grande imaginar essa força da Rachel de Queiroz em mim.

OP & Você chegou a conhecê-la pessoalmente?
Tércia & Eu cheguei a assistir uma palestra dela no Auditório José Albano, do curso de Letras (da Universidade Federal do Ceará), quando eu era estudante da graduação. Mas eu estava no meio de uma multidão.

OP & Que impressão ela lhe passou?
Tércia & Ela já estava bastante idosa na época, mas, mesmo assim, era uma pessoa que andava de cabeça erguida e falava sem papas na língua.
OP & Ser mulher e ser nordestina são temas recorrentes na obra dela. Como você vê isso?
Tércia & A Rachel não se dizia feminista. Ela lidava com essa questão do ``ser mulher`` de uma maneira admirável. A condição dela estava lá, mas ela não ficava usando isso como bandeira nem para se vitimizar nem muito menos para abrir um espaço forçado que os homens devessem a ela por gentileza. Ela adquiria o espaço de forma totalmente separada do fato de ser mulher. Eu acho que ela não usou esse argumento nem para o bem nem para o mal.

OP & De que maneira a Rachel influenciou a sua maneira de escrever?
Tércia & A literatura da Rachel é realista, incisiva, cruel com momentos de muita tragédia que você percebe não só no sertão, mas nos relacionamentos. São tragédias humanas. E eu acho que essa é uma lição permanente, de como a universalidade desses assuntos vigora até hoje. Por mais que haja a circunstância histórica do regionalismo de 30, é uma literatura eterna. Será lida sempre sem ser datada, sem soar exótica.
OP & Qual foi o primeiro livro que você leu de Rachel? Que impressões teve?
Tércia & Foi O Quinze e eu não tinha nem 15 (risos). Acho que li num fim de semana. Quando eu fui ler, muito tempo depois, na faculdade, A Queda, de Albert Camus, eu senti uma familiaridade tão grande com O Quinze. Não pela história, não pelo tempo, embora houvesse aquela atmosfera quente, mas, sobretudo, uma identificação de texto, de economia linguística, de objetividade, de precisão. Quando eu li O Quinze, tudo o que eu lia antes era mais rebuscado, gorduroso de adjetivos. Eu estava acostumada a sair das leituras transbordando. O Quinze era descarnado, me deu a sensação de sair com fome. Hoje acho que foi uma estratégia das mais inteligentes da Rachel. Já que ela estava falando de secura, de miséria, de fome, de ausência; escrever um livro tão objetivo foi a melhor maneira. Foi cair a ficha desse ardil quando eu fui ler O Estrangeiro (de Albert Camus). É uma história nua, mas ela é inesquecível.
OP - Você participou da antologia 25 Mulheres que estão fazendo a Nova Literatura Brasileira, como analisa a produção atual de escritoras em Fortaleza?
Tércia - Eu analiso sem analisar que são mulheres. Leio várias autoras, sem procurar a literatura dela com esse gancho. Aqui você tem a Carmélia Aragão. Tem muita gente, sobretudo da novíssima geração, que está produzindo, despontando, mesmo sem ter o primeiro livro publicado. Tem uma autora, a Ângela Calu, que é bem jovem, nasceu nos anos 80, é do Juazeiro e nós vamos publicar um texto dela na revista Para Mamíferos (publicação de artes local que foi lançada em 2009). Gostei muito dos contos que li dela. É um exemplo de pessoa que está surgindo em site, blog, e às vezes no jornal, sem publicar ainda um livro, mas que tem uma dicção própria. E, se continuar, tem tudo para ser um grande nome.

OP & Há alguma característica que une essas autoras da novíssima geração?
Tércia & Se você quiser procurar alguma coisa que seja constante em várias, você vê a Natércia Campos, a Ayla Andrade e a própria Mariana Marques. Entre elas, eu percebo um pouco de afinidade. Essas três têm esse teor um pouco pop, de textos curtos, que lidam com o expressionismo, com uma descrição mais bizarra, de temas mais urbanos, velocidade vertiginosa, como o ser humano se dissolve no meio da própria tecnologia. Alguns temas são comuns e a maneira de expor isso, de forma fragmentada, pontual e muitas vezes expressionista, até tendendo pelo grotesco.

OP & Qual é a maior dificuldade de ser escritora atualmente? É ter como publicar?
Tércia & A publicação é sempre uma coisa secundária. Cada vez mais estou convicta disso. Não é a publicação que faz o escritor. Você pode até ficar escrevendo e permanecer anônimo para o resto da vida e ainda assim você foi tão ou mais escritor do que aquele que publicou dezenas de livros. A publicação, quando ela surge de maneira capenga, frustra muito mais do quando ela não acontece. Outra coisa é quando você se joga numa publicação com todo tipo de otimismo e a publicação não corresponde aos seus desejos. Isso pode ser um golpe muito forte que todo escritor aqui no Ceará acaba vivenciando.

OP & O que é exatamente esse golpe?
Tércia & É a não-venda dos exemplares, o encalhe. É o seu livro não ser distribuído nas livrarias. O seu livro acaba virando papel velho, como diz aquela cláusula do contrato: se em tantos anos a tiragem não for vendida vai para reciclagem como papel velho. Isso se concretiza. Quem não passa por isso é um felizardo. Quem vê seu livro ganhando a prateleira da livraria e, sobretudo, a prateleira da casa das pessoas. Mas, na maioria dos casos, é o próprio autor que fica com a maior parte dos exemplares.
OP & Você já passou por esse golpe?
Tércia - Claro. Todo mundo passa. Do meu primeiro livro, O Vendedor de Judas, na primeira edição, em parceria com as edições UFC, eu recebi 600 exemplares. A essa altura, depois de 11 anos, eu devo ter uns 100 exemplares. Eu ia às livrarias, deixava em consignação, mas eu nunca tive talento comercial. Acho péssimo fazer negócio com livro. Quanto menos eu puder lidar com dinheiro em relação a livro, melhor. Os próprios editores também amargam terrivelmente. Essa questão da venda para eles também é altamente problemática e cara. Às vezes você tem que pagar para vender. Há sistemas de vendas em grandes livrarias em que você tem que pagar o transporte para a matriz em um outro estado. E ainda tem um desconto de 50% na consignação.
OP & Nesse cenário, que papel a Bienal tem?
Tércia & A Bienal é um momento de agitação desse comércio. É excelente que haja um evento desse tipo justamente para criar hábito nas pessoas. É um momento de conquista de público. Mas a gente não pode esquecer que não é a salvação. A Bienal tem o seu limite, o seu tempo definido. Eu vejo como uma vitrine favorável, onde você pode se apresentar para as pessoas que não te conhecem. Vejo também como um espaço de encontrar também os seus ídolos, de fazer um pouco de tietagem.

OP & Nessa Bienal, tem algum escritor do qual você é tiete?
Tércia & Tem o Affonso Romano de Sant-Anna, que eu já tinha tietado antes, e a própria Marina Colasanti também.

OP & O conto é o seu gênero de maior afinidade?
Tércia & É da minha preferência. É o gênero que eu quero praticar pelo resto da vida. Ao mesmo tempo, faço exercícios em narrativas longas. Fiz um primeiro romance que não necessariamente será publicado algum dia. Estou fazendo um segundo exercício de romance, também sem pretensões de publicar.
OP & Por que não publicar?
Tércia & Ele já está pronto. Já mexi anos e anos nele. Mas não quer dizer que ele esteja com o tempero adequado. Eu fico muito receosa em estrear, publicando em um novo gênero, sem estar madura. Vou precisar fazer vários outros romances, jogar fora, para publicar o primeiro.

OP & Não é um nível crítico muito alto ao qual você se submete?
Tércia & Acho que tem que ser assim. Você não pode se deslumbrar. É melhor cair no pecado da autocrítica excessiva do que na vaidade excessiva. O artista é muito sensível e parte dessa sensibilidade está ligada ao ego.

OP & É segredo o título desse romance que você não pretende publicar?
Tércia & É (risos). Digamos que ele está no limbo.

OP & O livro sobre a Rachel de Queiroz é voltado para o público infanto-juvenil. Você publicou outros livros desse tipo. Tem interesse especial por esse público?
Tércia & Foram oportunidades que surgiram e elas abriram o campo do interesse. Na Bienal, eu vou lançar outros dois livros. Estou praticamente intoxicada (risos). Revisei três livros ao mesmo tempo, todos eles para o público dessa faixa etária. Um se chama Cores de Gatos e Rosas (Conhecimento) e o outro Instruções para Beijar (7 Letras). E ainda tenho mais dois títulos que ainda estão engatilhados também para esse público. Peguei o embalo. O próprio O Vendedor de Judas, meu primeiro livro, foi escrito sem que eu pensasse no público juvenil para ele e ele começou a ser adotado em oitavo ano ( ensino fundamental) e em primeiro ano (ensino médio) em escolas. Já faz oito anos que ele é adotado no Colégio Batista, no Christus.

OP & O que tem de diferente em escrever para crianças e adolescentes?
Tércia & Sobretudo, a linguagem. Tem que ficar numa fronteira muito delicada. Você não pode infantilizar, usar uma linguagem pobre, bobinha. Não é isso. Você pode e deve usar metáforas, cenas criativas e instigantes. Mas existe o grau certo para fazer isso. Ação e aventura também. Essa coisa mais introspectiva, de narração mais densa deve ser evitada. A própria Clarice Lispector, eu li quando criança. E os livros dela para crianças não têm epifanias. Me diverte muito escrever para criança. De repente, eu fico fazendo as relações mais malucas para puxar pela imaginação. Às vezes aparecem situações muito bizarras. É muito legal brincar com as possibilidades. É como se você pudesse ousar a perder de vista. Mas há momentos dramáticos. Eu, acostumada a escrever contos trágicos, tenho uma tentação de matar a personagem, mas tenho de resistir porque é uma história para crianças (risos).

OP & Você também é professora do curso de Letras na Universidade Federal do Ceará. Como concilia as duas profissões?
Tércia & É uma vida dupla. Quando estou em sala de aula, eu me esqueço completamente que sou escritora. Quando estou escrevendo, me esqueço completamente que sou professora. Alguns alunos até ficam espantados porque descobrem que eu sou escritora. Por mais que sejam separadas as atuações, a sala de aula fornece tipos humanos, situações, histórias de vida que a gente capta. Certa vez eu escrevi um conto sobre uma garota anoréxica que era uma aluna minha. Espero que ela nunca tenha sabido (risos). Eu mantive o mesmo nome. Eu tenho esse problema: os personagens aparecem de tal maneira que o nome e a aparência da pessoa não se dissociam.

OP & Como é o seu trabalho de criação? Vem da realidade que você observa mesmo?
Tércia & Na maioria das vezes, os personagens aparecem e aparecem de uma maneira tão óbvia que só falta aparecer uma seta fosforescente em cima da cena, da ocasião, da pessoa ou da palavra. Mas você passa também temporadas achando que o mundo está sem graça. Aí você tem que forçar a criatividade. Pensar em situações improváveis, em viagens. É um exercício.
OP & Escrever é um ato solitário para você?
Tércia & Se tiver alguém em casa, eu não consigo escrever. Pode ser a pessoa mais íntima. Eu acho que eu tenho que ficar dando atenção. Ou eu acho que aquela pessoa vai me chamar a qualquer momento e eu prefiro nem começar o processo. Eu não consigo escrever se daqui a uma hora eu tiver de sair. Quando eu me sento para escrever eu tenho de ter todo o tempo do mundo. A gente também acaba considerando a menor prioridade a escrita. Você tem que se policiar. Às vezes, é um auto-boicote. Eu sinto que eu tenho medo e fico adorando quando aparece um compromisso.

QUEM É TÉRCIA MONTENEGRO
É autora do livro de contos O Vendedor de Judas (Prêmio Funarte 1997/ seleção PNBE 2008), Linha Férrea (Prêmio Biblioteca Nacional 1999 e Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira & Revista Cult 2000) e O resto de teu corpo no aquário (Prêmio Secult 2004). Escreveu também o ensaio biográfico Oliveira Paiva e participou das antologias nacionais 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Contos Cruéis, Contos de agora, Quartas Histórias e Capitu mandou flores. Sua bibliografia também conta com os livros infantis e juvenis Vítor cabeça-de-vento (Prêmio BNB de Cultura, 2007), Um pequeno gesto (Fundação Demócrito Rocha, 2006), O gosto dos nomes (Seduc, 2006) e A História de uma Calça (Littere, 2008).

(Fonte: Rachel: o mundo por escrito)

Fonte : http://opovo.uol.com.br/opovo/vidaearte/968994.html




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