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domingo, 4 de abril de 2010

BIENAL - MEMORIAL DE RACHEL


Rachel de Queiroz escreveu sobre tudo. Pelo menos, quase tudo... futebol, economia, política, artes plásticas, música de câmara. Não porque tivesse adquirido conhecimento, dizia ela, mas ``investidura, que é ainda melhor``. A mesma investidura fez com que a Literatura Brasileira mudasse para sempre desde o seu romance de estreia O Quinze, publicado em 1930, aos 20 anos de idade. Pioneira do Regionalismo de 30, Rachel deixou sete romances, inúmeras crônicas, traduções de clássicos, peças de teatro e livros infanto-juvenis. Partiu em 2003, aos 92 anos, como uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX.

Em 2010, a autora recebe homenagens pelo centenário de seu nascimento na IX Bienal Internacional do Livro do Estado do Ceará, no Centro de Convenções de Fortaleza, entre os dias 9 e 18 de abril. Em meio às comemorações, o projeto Rachel de Queiroz - 100 anos, desenvolvido pela Fundação Demócrito Rocha, com o apoio da Academia Cearense de Letras, traz ressonâncias da vida e obra da autora na publicação, durante o evento, de uma trilogia de crônicas e ensaios e uma biografia infanto-juvenil.

Da trilogia, saem os títulos Do Nordeste ao Infinito: coletânea de crônicas, organizada por Regina Ribeiro; Uma Escrita no Tempo: Ensaios, organizados por Fernanda Coutinho; e A Lua de Londres: coletânea de crônicas, organizada por Ana Miranda. A biografia Rachel: o mundo por escrito, assinada por Tércia Montenegro, simula um diário no qual a própria Rachel em sua adolescência constrói planos. As passagens do livro fizeram realmente parte da existência da escritora d´O Quinze e são como testemunhos da sua vida e do seu tempo.

Coordenadora editorial do projeto, a jornalista Regina Ribeiro leu mais de mil crônicas da escritora, muitas já editadas em livros a partir dos anos 1940 pela editora José Olympio. Uma parte delas a coordenadora entregou para a escritora Ana Miranda e a outra teve de reler novamente para organizar Do Nordeste Ao Infinito. ``Quando reparei nelas para ver o que seria publicado, percebi a intimidade nordestina que Rachel expõe numa crônica que é publicada nacionalmente, não apenas no Ceará. É como se ela decifrasse o Nordeste``, explica. Na coletânea estão reunidas mais de 50 crônicas, publicadas entre 1940 e 2002.

Autora de Boca do Inferno (1989) e Desmundo (1996), Ana Miranda transcrevia textos de Rachel de Queiroz para uma rádio, quando jovem, no Rio de Janeiro. ``Datilografar textos de Rachel me deu o prazer de sentir como se eu fosse ela mesma escrevendo. Eu já conhecia a força de seus livros, mas, ali, meus dedos eram guiados pela qualidade de sua prosa``, conta na apresentação de A Lua de Londres. Das 130 crônicas que recebeu, selecionou 50 textos, publicados originalmente entre 1928 e 1988, e inéditos em livro. ``Tentei manter as crônicas que falassem da vida da escritora, de seus sentimentos, e uma mostra de seu pensamento. Rachel escrevia de olho na política e na sociedade``, diz por e-mail. Entre os achados de Ana Miranda, está a crônica A Lua de Londres, ``no máximo de lirismo a que Rachel de Queiroz se permitia``. ``O tema da lua sempre é associado ao romantismo, e ela mostra uma lua que ilumina as ruas de uma cidade destroçada pela guerra, no escuro, e que se torna inimiga apenas por clarear, por cumprir sua aptidão natural``, conta.
Ensaios
A professora da Uece, Lourdinha Leite Barbosa, que assina o ensaio Memorial de Maria Moura: um romance de busca, dentro da coletânea Uma Escrita no Tempo, conviveu pessoalmente com a escritora. ``Conheci a Rachel quando eu era adolescente. A Rachel era uma pessoa muito inteligente, irônica, mas muito generosa e simples``, conta. À época, a professora passou temporada de férias escolares na fazenda do Junco, em Quixadá, onde Rachel viveu com a família. "Tive acesso aos livros da biblioteca da casa``, lembra. ``Rachel era fantástica. Conversar com ela era descortinar um mundo maravilhoso``. No ensaio, a professora, que é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará analisa a jornada, a luta e o reconhecimento da heroína do último romance de Rachel de Queiroz. ``Quase todas as protagonistas de Rachel estão em busca de alguma resposta para o destino delas. Estão em busca de auto-realização, de um espaço na sociedade``, diz.

Uma Escrita no Tempo reúne ensaios e trabalhos acadêmicos em grande parte inéditos. Entre os autores estão Nélida Piñon, Eduardo de Assis Duarte, Luís Bueno, Cecília Maria Cunha e Sânzio de Azevedo. Entre os textos de referência acerca da obra da escritora cearense, está o título As Crônicas de Rachel de Queiroz, assinado por Heloísa Buarque de Hollanda, no qual a ensaísta analisa as narrativas escritas ao longo de quase toda a vida de Rachel.

Um dos casos retratados no livro é a história da biógrafa de Rachel de Queiroz, Socorro Acioli, em Das Palavras sob as Telhas da Velha Casa. Ela descobriu, a partir de pistas dadas por uma única foto, o sítio onde Rachel de Queiroz morou no Pici. Da descoberta, surgiu um livro infantil e o tombamento da casa. ``Os ensaios vão dar notícia da versatilidade de Rachel, que além de cronista e romancista, foi responsável por importantes traduções, especialmente do russo e do inglês``, acentua a organizadora Fernanda Coutinho.


Juliana Girão 
Fontehttp://opovo.uol.com.br/opovo/vidaearte/968993.html

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