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sábado, 23 de julho de 2011

Ensaio da amiga Aíla Sampaio para o Caderno CULTURA, do Diário do Nordeste no dia 17/07/11,  sobre a Antologia "O cravo roxo do diabo"": o conto fantástico no Ceará. Recentemente lançado em Fortaleza. 

 ENSAIO
A fantástica literatura do Ceará

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Recentemente, foi lançada em Fortaleza a Antologia "O cravo roxo do diabo": o conto fantástico no Ceará, organizada pelo escritor Pedro Salgueiro. A pesquisa durou três anos e resultou num rico acervo do gênero, revelando a prodigiosa criação dos escritores cearenses desde o século XIX, quando vieram a público as primeiras publicações de textos literários em nosso estado
A Antologia "O cravo roxo do diabo": o conto fantástico no Ceará é a primeira coletânea de contos fantásticos produzidos na terra de Alencar.

A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.

O volume da pesquisa fez necessária a participação de outros três nomes da nossa literatura: Sânzio de Azevedo, Alves de Aquino (Poeta de Meia Tigela) e Carlos Roberto Vasconcelos, o que resultou num livro de 674 páginas, cujo título foi tomado de empréstimo de um conto de Álvaro Martins, infelizmente não localizado pelos pesquisadores. A bela capa criada pelo escritor Raymundo Neto, bem como o trabalho gráfico da Expressão dão ao vultoso acervo o aspecto de obra definitiva. A istematização dos cânones do Fantástico passou por muitas revisões. A mais tradicional, de Todorov, no livro Introdução à literatura fantástica, assevera que ele se alicerça por meio da hesitação do leitor em ´aceitar´ ou não os fenômenos narrados, desde que tais fenômenos não predisponham uma leitura alegórica nem poética.

O enquadramento
O crítico estruturalista opõe, ainda, o que ele chama fantástico a outros dois conceitos fronteiriços: o estranho ou o maravilhoso; o fantástico ocupa o tempo da incerteza, da vacilação entre aceitar ou não o evento extranatural; assim que se escolhe uma resposta ou outra, o fantástico é abandonado e entra-se no domínio de um dos gêneros vizinhos: o estranho ou o maravilhoso. Nessa acepção, nem todos os textos aqui coletados estariam inseridos no gênero.

Tomando, entretanto, a concepção mais atual, de Ana María Barrenechea, que afirma a configuração do fenômeno em forma de problemas feitos a-normais, a-naturais ou irreales em contraste com factos reais, normais ou naturais, considera-se fantástico todo texto cujo enredo encene acontecimentos que transponham as leis naturais, ou seja, que coloquem em conflito o mundo empírico e o mundo fantasioso.

A Antologia
Na primeira parte da antologia, dedicada aos contos, constam 172 narrativas organizadas em ordem cronológica do ano de nascimento dos seus autores, tal como ocorre nos dois Apêndices. Todos os textos, embora focalizem o extranatural por procedimentos estéticos diferentes, inserem-se no que se denomina, hoje, literatura fantástica, numa acepção ampla do gênero, tomando-o, pois, como narrativas de mistérios que confrontam o racional e o irracional.

No Ceará, o primeiro conto fantástico de que se tem registro foi escrito por Juvenal Galeno. "Senhor das Caças" tem a mesma estrutura das narrativas de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna: enquanto trabalham com a mandioca, num serão na farinhada, os sertanejos contam histórias de caiporas, aventuras de caçadas e encantamentos. São histórias dentro de uma história. Igual estrutura está no conto "Capitão Maciel, 3.ª companhia", de Tomás Lopes, cujo enredo deixa claros seus desdobramentos: "Depois do jantar, na salinha do café, falava-se de casos estranhos, mistérios do além-túmulo. Cada um contava a sua história, todos, porém, afetando descrença, ceticismo, explicando tudo pela coincidência", numa tentativa de racionalização que não impede o espanto quando se constata a aparição de um morto, motivo também presente em Cruz Filho ("A basílica"), cujo enredo comprova a presença da ex-escrava nas ruínas da igreja onde morreu. Florival Seraine, igualmente, em seu "Guajará", coloca o insólito em contação de ´causos´ numa venda.

O realismo cearense foi prodigioso no espírito inventivo das narrativas fantásticas do início do século XIX. Duas representações significativas estão nas narrativas de Pápi Jr. ("A cruz-das-malvas") e Oliveira Paiva ("O ar do vento, Ave-Maria"). No enredo do primeiro, há uma atmosfera propícia para o sobrenatural, na descrição esmerada da escuridão da noite impenetrável e compacta, corria-nos pela frente como um largo pano sujo de fuligem, em que aparece, na estrada, em frente à cruz-das-malvas, o fantasma da pessoa que lá foi enterrada. Na do segundo, a aparição de um monstro, no meio da noite, carregando a cabeça de uma mulher (fazendo, ainda, umas caretas horrorosas) para enterrar.

E vários motivos dão asas à criação do conto fantástico cearense, como as peripécias do capeta ("O dia aziago", Lopes Filho), aparição de almas penadas ("Alma penada", de Américo Facó), espectros ("Espectros", Gustavo Barroso), visagens ("Junho é um mês que não tem fim", de Batista de Lima). Histórias de pescador com aparição de sereias ("Sereias", Herman Lima) ou botijas ("Uma história fantástica", Martins d´Alvarez; "A botija", Genoíno Sales e "A botija", Lustosa da Costa).

Outras faces
Algumas vezes, não se configura nenhum fenômeno, tão somente a atmosfera de mistério estabelece a presença do extranatural ou seu prenúncio, como ocorre no conto "Casas mal-assombradas" de, Carlyle Martins (Numa visão macabra e sinistra, atestando a transitoriedade de uma vida de opulência e conforto, a velha casa, como que indiferente ao perpassar dos anos, ensombrada pelas mongubeiras sempre monótonas e sussurrantes, tinha as paredes carcomidas e cobertas de fendas./.../

Por seu aspecto aterrador, atestava ela a glória do passado distante, obscurecido pelas brumas dos tempos e demonstrando como a felicidade humana é incerta e passageira...) e em "A Oiticica", de Otávio Lobo (Se alguém, rompendo o escuro, passa debaixo de alguma oiticica, sente arrepios de medo, pavor de visagens e, ainda, assombrações de almas do outro mundo).

Fique por dentro A gênese do discurso
O gênero fantástico tem suas raízes nas histórias de deuses, fadas e feiticeiras da Antiguidade Clássica, mas se consolidou como estética a partir do Romantismo, com suas narrativas góticas. Como todo gênero, o Fantástico teve estabelecidos os seus cânones, continuamente fundamentados e revisados por teóricos como Roger Callois, Tzvetan Todorov, Irene Bessiérre, Louis Vax, Victor Bravo, Filipe Furtado, e, mais adiante, a filóloga argentina Ana María Barrenechea, entre outros. Mestres do Horror, como H.P. Lovercraft, E. T. A. Hoffman, Edgar Allan Poe e Teophile Gautier deixaram um legado para os amantes do sobrenatural e exerceram influências na ficção fantástica produzida em todo o mundo.

AÍLA SAMPAIOCOLABORADORA*
* Professora da Unifor; poetisa e ensaísta, autora do livro Os fantásticos Mistérios de Lygia (2009)

ENSAIO

Aspectos de uma engenhosa escritura

Publicado em 17 de julho de 2011

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São bastante prodigiosos os engenhos dos nossos contistas, seja a dar vida a uma bailarina de bronze, num delírio ("A cigana", de Pimentel Soares); a configurar um milagre de um padre que salva, com sua atitude, um jovem médico da fúria de fanáticos religiosos ("Milagre" - Fran Martins), seja a atribuir a concretização de um fato insólito à fé em Nossa Senhora, como o faz João Clímaco Bezerra ("História do mar"), ou, então, a fazer sorrir um macabro boneco de Judas ("Judas", Edigar de Alencar).

Entre muitos dos textos modernos, permanecem os temas tradicionais, como a metamorfose e a morte: no conto "Pedra encantada", de Raquel de Queiroz, A história é que toda véspera de Ano-Bom ao bater da meia-noite a pedra se desencanta... molda-se a mulher toda na pedra mole como o barro no torno do oleiro. /.../ E por fim. Exausto, dorme, e quando o dia amanhece ele acorda à beira da água, junto às moitas de muçambê, e vê a pedra escura ao seu lado, e tudo lhe diz que as suas lembranças foram um sonho. Já na narrativa "O 10 nos limites do Bené Gavião", de Barros Pinho, "O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado".

Elementos temáticos
A morte toma forma humana em "Dizem que os cães veem coisas", de Moreira Campos, que a personifica na figura de uma mulher, antiguíssima, atual e eterna, para levar a vida de uma criança que se afoga na piscina enquanto os pais divertem-se numa festa. Do mesmo modo, no romance A Casa, de Natércia Campos, além da antropomorfização da casa, que é a narradora-testemunha de muitas histórias que se passaram sob o seu teto, a morte também assume a forma de uma pessoa que surge inusitadamente quando ocorre um suicídio por enforcamento em um dos quartos. No conto "O encanto recidivo", de Giselda Medeiros, os mortos dançam e pensam; nos enredos criados em "A capa de chuva", de Sânzio de Azevedo e em "As almas do rio perdido", de Lucineide Souto), pode-se perfeitamente conversar com pessoas mortas; em "Terror", de Glória Martins, bonecas adquirem vida, riem pavorosamente e cometem crimes.

Mistérios do além
No conto "O Homem de Neandertal" de Rubens de Azevedo, não há fronteira entre o presente e o passado; o narrador tenta proteger um amigo arqueólogo de um atentado fatal, mas não consegue: " não sonho. Parece que penetro numa fenda do tempo e participo realmente daquela vida primitiva". O arqueólogo, mesmo trancado no quarto do amigo que o vigia pelo lado de fora, é assassinado, durante a noite, por um homem das cavernas que já foi seu objeto de estudo e já vinha, há muito, ameaçando tirar-lhe a vida. Já Raimundo Batista Aragão instaura o sobrenatural na figura de uma alma penada que aparece na estrada para pedir ajuda aos incautos. Diz o narrador de "O assobiador do Folha Larga": "sexta-feira, 13 de agosto e noite de lua cheia. Como reforço às possibilidades de encontro com os mistérios do além, havia e bastante comentado, o "Assobiador do Folha Larga" cuja figura era tida como infalível. /.../ Corcunda, rosto coberto, pernas alongadas e a imitar com perfeição as pernas de um alicate. Fez-me lembrar de relance a fealdade do Corcunda de Notre Dame. Conduzia no dorso certo fardo volumoso, talvez pesado e sobretudo incômodo, uma vez que o soprar constante demonstrava cansaço. Aproximou-se ainda mais, do local onde eu me encontrava e deu o ar da costumeira e civilizada educação", tratava-se, na verdade, de um filho que há tempos assassinara o pai e ficara a vagar, carregando um peso nas costas, qual Sísifo castigado, inexoravelmente, por Zeus.

As transposições
No conto "Quadros em movimento", de Lourdinha Leite Barbosa, ´os personagens´ dos quadros afixados na parede do apartamento da narradora libertam-se e saem, como em rebelião, cada um contando a sua história de aprisionamento nas telas; quando o leitor tende a racionalizar o acontecimento, atribuindo-o a um delírio da narradora que se confessa extremamente cansada, eis que ela desperta com a queda de um quadro e percebe que a tela está completamente branca, sem vestígio de tinta.

Já no conto de Rosemberg Cariri, ocorre uma situação inversa: um homem adentra uma tela e, logo que se integra à paisagem, numa sensação de bem-estar, descobre a presença de um leão feroz. No enredo de "Escadaria", de Mônica Silveira, a personagem entra no cenário de um desenho, depois retorna à realidade, como se o insólito fosse natural. No "O leopardo da galeria Pedro Jorge", de Aldir Brasil, o narrador inicia o conto declarando "Escapou do Bom Jardim depois do sumiço da mãe e instalou-se para sempre nas paredes da cidade, feito colagem barata"; após inusitadas situações, o personagem desaparece sem que saibamos se era realmente homem ou bicho. Em "A última obra", de Isa Magalhães, é a leitora que entra na obra que está lendo, fundindo, assim, realidade e ficção.

Múltiplos caminhos
A técnica da tentativa de racionalização do evento fantástico, de que falamos há pouco, própria do escritor consciente dos cânones do gênero, está também presente na narrativa "Tugúrio", de Carlos Vazconcelos; quando o leitor pensa que tudo o que o personagem viveu foi apenas um pesadelo, o narrador o arrebata com a informação: (Texto I)

No universo fantástico, tudo é perfeitamente possível: Unhas que surgem durante a noite ("Unhas", de Ana Miranda); ondas que aparecem repentinamente e invadem a cidade ("A onda", de Adriano Espínola); a moça que tem gatos dentro de si ("A menina que tinha gatos dentro de si", Carmélia Aragão); uma cidade estranha, dominada pelos dragões, que remete a uma alegoria (que não se concretiza) da impossibilidade de se viver nas metrópoles atualmente ("Os quatro dragões azuis", de Dimas Carvalho); o jogo de dama ativo mesmo após anos da morte de seu dono, que o movimenta durante a noite, seguindo o ritual de quando estava vivo ("Jogo de Damas", de Pedro Salgueiro). No texto de Jorge Pieiro, "O bicado Oreblas", o que ocorre no sonho do personagem se torna realidade quando ele acorda, como se o mundo onírico e o real tivessem feito um pacto.

O insondável mistério da morte permite muitas experiências estéticas e inspira a criação de universos que transcendem a razão. No irônico "Pequeno interlúdio para o desespero", de Airton Monte, a personagem parece ter passado a vida a aprender a cozinhar para os seus familiares, pois, quando atinge o seu objetivo e os procura para se sentarem à mesa, todos viraram peças de pedra ou de cera; a descontinuidade do tempo permite que ela não o perceba. Em "Folhas Caídas", de Nilze Costa e Silva, a vida da personagem depende da vida da planta; quando o vegetal murcha, a moça sabe que é hora de partir. No conto de Silas Falcão, "O Celular", o protagonista, após retornar de um enterro, recebe a ligação da pessoa morta. Já em "O sobrevivente", de Tércia Montenegro, são "as nuvens ruins do céu" o elemento desencadeador de uma maldição.

O insólito
Acontecimentos inusitados se desdobram nos enredos, tornando possível o que parece absurdo. Nilto Maciel metamorfoseia um rosário na figura de um homem: (Texto II)

O conto de Glauco Sobreira, "Como sou por dentro", surpreende pela simplicidade com que os elementos narrativos, em poucas descrições, criam o efeito fantástico: o personagem tem uma ferida no tórax que o transforma numa ruína. Lembra a alegoria de "O homem do furo na mão", de Ignácio de Loyola Brandão, mas a expressão concisa do autor não permite encontrar, nem no final do texto, qualquer explicação racional para o fenômeno. Do mesmo modo, lembra uma alegoria do homem saturado pelo estresse da vida o enredo construído por Jesus Irajaci Costa, em "Avenida Treze", onde o advogado Jorge Vargas, atormentado por problemas domésticos, acorda num dia incomum e atinge o seu limite de tolerância ao ver-se preso num engarrafamento. Ele se transforma num gorila e, após deferir golpes nos automóveis parados na avenida, foge, incólume, para o mangue.

Se os fantasmas ´alvacentos e aterrorizantes´ eram os instauradores do insólito nos primeiros contos fantásticos, fazendo jus a uma era de crendices em visagens e espectros, no nosso tempo, o extranatural pode ser apenas a desagregação do real, e os motivos se atualizam para traduzir o medo de um novo tempo: uma planta, os pés inchados, um relógio, ou "humanoides planando sobre discos metálicos". São muitos os contistas cearenses que enveredam pelo insólito; alguns de modo mais tradicional, instaurando um clima desagregador e o medo; outros naturalizam o extranatural, trazem-no para a rotina do personagem sem a instauração do pavor, embora colocando o leitor diante de fatos que fogem, então, totalmente da lógica referencial.

Trechos
TEXTO I
"O ambiente agora era úmido e fétido. Verificou as palmas das mãos com olhos abismados. Mal podia acreditar. Teve visões difusas do seu inferno. Mas ainda não era hora de purgar a alma. Só quando voltou a si definitivamente é que foi recordando... aos poucos... E compreendeu, com assombro, que o pesadelo estava apenas começando".

TEXTO II
"O rosário não parava de se mover, arrastava-se pelo chão como um réptil, dando voltas ao redor da mesa e de nós. E só então compreendemos a verdadeira natureza das contas. Não, não se tratava de um rosário de contas, de um objeto, mas de um ser vivo". Raymundo Netto, no conto "Anúncio", cria um personagem que, no decorrer dos fatos, inquieta-se com os olhares e as atenções que atrai; só no final revela-se o mistério: "Foi ao banheiro, torceu para que a cunhada ali não estivesse, e encostou-se à pia. Foi então que teve a conclusiva revelação: ante ao armário do banheiro, percebeu que, ao invés de sua costumeira face, havia um espelho!".


ENSAIO

A casa enquanto abrigo para o insólito

Publicado em 17 de julho de 2011

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Na segunda parte da Coletânea, estão capítulos ilustrativos dos 17 romances fantásticos escritos por cearenses. O primeiro, A casa assombrada, de Bezerra de Menezes, traz a inserção do sobrenatural, a presença de barulhos estranhos e mesmo uma assombração corporificada, capaz de interagir com os vivos para horrorizá-los: de repente, foi a atenção de um e de outro atraída para a aparição de um terceiro, embuçado em um capote escocês, que se acocorou ao pé de Manoel e pôs sobre as brasas a sua espetada. Esta, em vez de ser de carne, era um sapo enorme, cuja gordura derretia-se e pingava nas brasas, que crepitavam sinistramente. Os dois olharam-se como quem dizia: temos obra. O intruso, mudo e impassível, virava o sapo, ora de barriga para cima, ora de costas, e, por fazer obséquio a quem lhe fornecera as brasas, levava-o acima da espetada vizinha para untá-la com a gordura que escorria do bicho. O Fantástico se realiza de forma tradicional, tanto pelo espaço, como pelo clima soturno que se estabelece, quanto pelo motivo que conduz o enredo.

Rodolfo Teófilo
Em O Reino de Kiato, de Rodolfo Teófilo, não há a presença de assombrações, mas tão somente de elementos que subvertem a normalidade, como a flor esquisita e curiosa, que Tinha corola de um sem número de pétalas azul ferrete, quase negro, como que brunidas, com reflexos metálicos, e no centro os órgãos de reprodução, alvos como arminho; engastava-se num pedúnculo curto, envolvida num ambiente delicado e sutil perfume bem como a uma crisálida, uma joia que resplendia aos raios do sol, vistas pelo dr. John King Paterson, ao chegar em Kiato, cidade que causava estranheza pela soberania da liberdade depois de mais de um século de reação contra os usos e costumes, frutos da intoxicação alcoólica e sifilítica.

Já A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas, retoma o diálogo com os mortos, visto em A casa assombrada, configurando um fenômeno que ultrapassa o estranhamento, a mera anormalidade, e instaura a presença do sobrenatural, tal como ocorre também em O valete de espadas, de Gerardo Mello Mourão, por meio do casarão e de Gamaliel que figuram ao narrador como aparições diabólicas, modificando, inclusive, a sua visão sobre a anormalidade da amada Jezebel.

Os espaços
A casa assombrada, ou o casarão, ou simplesmente a casa, são espaços e motivos de várias narrativas presentes nesta Antologia. Na obra de Natércia Campos, a casa é a personagem protagonista e a narradora de fatos que atravessam gerações. Em o Mundo de Flora, de Ângela Gutiérrez, há um casarão onde se ouve a voz dos mortos; em Leão de Ouro, de Natalício Barroso, há até a observação: "não há casa antiga que não tenha seu fantasma", já que os mortos arrastam chinelos, desarrumam coisas e acendem velas.

Em Coração de Areia, de Marly Vasconcelos, também são os mortos os autores dos fenômenos, pois se manifestam e exercem influência na vida dos vivos através dos seus retratos. No enredo de Busca, romance do professor Teoberto Landim, igualmente há uma casa mal-assombrada, onde, durante a noite, estilhaçam-se garrafas no chão. Seja com um leitmotiv futurista, como disco-voador; inusitado, como cabeças de deuses que dão orientações para a vida; ou tradicional como a visão de almas, o ouvir de vozes, a petrificação de uma moça durante a missa ou o revoar de morcegos presos em gaiolas, aparição de serpentes ou abutres, transformando o clima de toda uma região, as narrativas se constroem por meio de fenômenos inexplicáveis pelas leis da razão.

Loucura e maldição
Em Os verdes abutres da colina, de José Alcides Pinto, loucura e maldição se fundem, criando um universo completamente surreal. A lógica dos fatos é subvertida pela presença de uma maldição em todo o Alto dos Angicos, região fundada pelo coronel Antônio José Nunes, o garanhão luso que naufragou naquelas terras e a povoou unindo-se a uma índia. Ele multiplica a população ao relacionar-se com várias mulheres ao mesmo tempo, inclusive com suas filhas; assim, seus netos são também seus filhos. Os verdes abutres anunciam o fim de tudo, transformam toda a atmosfera, mesmo com a crença do povo no poder do demônio preso numa garrafa.

Não necessariamente o evento instaurador do insólito percorrerá toda a obra romanesca; desde que encenado, em qualquer passagem, dará a ela a caracterização do gênero de que ora tratamos, o que não negará, se existente, a presença do estranho, do maravilhoso, do macabro ou do surreal.

Quanto aos poemas, os teóricos do gênero não citaram, em nenhum de seus estudos, peças para ilustrar características do Fantástico, tão somente mostraram a sua configuração em composições narrativas como o conto e o romance. A despeito dessa desconsideração pela presença do gênero em versos, um dos primeiros textos que incorporaram elementos como gigantes, deuses e intervenções sobrenaturais na literatura foi o "Poema de Gilgamesh", composição suméria do 2000 a. C, a que se seguiram a epopeias a Ilíada e a Odisseia, de Homero, todos, como é natural do épico, versos narrativos com forte inserção do extranatural. Já na Idade Média, apareceu, na Índia, o Mahábharata, poema que narra acontecimentos históricos que têm, nitidamente, a intervenção do mitológico. Especificamente no Ceará, tais manifestações se deram, inicialmente, na poesia do patriarca Juvenal Galeno, do poeta Barbosa de Freitas, dos romancistas Bezerra de Menezes, Rodolfo Teófilo e Emília de Freitas, bem como em contos e poemas de Antônio Sales, percorrendo as correntes estéticas que se seguiram e se sobressaindo, então, em gêneros textuais variados.

A voz lírica
Tomando o Fantástico na acepção de fantasia ou encenação de evento transgressor da normalidade, os organizadores decidiram incluir nesta coletânea poemas que transparecem imaginações delirantes ou evocam criaturas que subvertem fatos naturais, como bruxas, duendes, gnomos, feiticeiras, morcegos, sereias, satanás. Compreendendo-o, em sua concepção primeira, como instauradores do mal, os versos são abundantes em palavras como: treva, morte fúnebre, lúgubre, sombrio, tormento, fantasma, mistério, vulto, pântano, assombração, medo, maldição, alma, soturno, visagem, espectro, pavor, horror, presságio, todas pertencentes a um campo semântico muito semelhante. O ponto alto da seleção está nos poemas narrativos, dos quais se podem destacar Excertos de Brosogó, Militão e o Diabo, de Patativa do Assaré, em que Brosogó acende vela para o diabo e o encontra, na vida real, como seu defensor; em O vestido que verteu sangue, de Oswald Barroso, conta-se a história de Maria Sinhá, cujo vestido verteu sangue, como anuncia o título, Saiona, a mulher dos olhos de fogo, de Rouxinol do Rinaré, cujo título já anuncia a desordem do real.

Considerações finais
Seja no conto, seja no romance ou nos versos, os fenômenos sobrenaturais e o insólito são fontes de inspiração perene para os escritores cearenses. A desagregação da lógica, a subversão da normalidade, se dá, sobretudo, pelo insondável mistério da morte, que predispõe a inquietação e a inventividade dos que sondam seu enigma. A metamorfose, a aparição dos mortos, a presença de seres sobrenaturais ou providos de poderes inusitados colocam o leitor diante de um universo em que absolutamente tudo é possível. Com essa amostra, tão bem selecionada pelos organizadores da antologia, vê-se que o gênero fantástico permanece, embora com seus cânones revisados, e que a produção da nossa literatura está em constante busca do universal; ultrapassou, há muito, as fronteiras do regional e pode se afirmar, qualitativamente, em qualquer contexto.

Saiba mais
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1993

DIMAS, Antônio. Espaço e romance. São Paulo: Ática, 1986

MESQUITA, S. Nahid de. O enredo. São Paulo: Ática, 1986

PARDAL, Paulo de Tarso.Discurso do imaginário. Fortaleza: Livro Técnico, 2003

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Cia das Letras, 1999
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