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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Entrevista com Aíla Sampaio 12/10/09

Foto: Aíla Sampaio

Essa entrevista mostra um pouco da trajetória literária como   escritora e contista, da professora Aíla Sampaio que se dedica com muitos esforços e dedicação naquilo que faz, deixando o seu legado não somente na literatura cearence, mas também na nacional.


Participação de Razek Seravhat às 11:05


Aurisleide Mourão_Que influência a Psicanálise exerce na sua obra... O que pode nos contar da influência galega na língua, na poesia... "O amor e o ódio" esse amálgama. ... Que mistério é esse?

Aíla Sampaio - Na minha poesia, embora haja um trabalho de linguagem, há muito de catarse, desejos e fantasias e acho que tudo isso traz um viés da Psicanálise. No livro que lançarei no próximo dia 24 - Os fantásticos mistérios de Lygia - em que abordo contos fantásticos de Lygia Fagundes Telles, a Psicnálise me deu subsídio para muitas análises, de forma bem consciente. Quanto à influência galega na língua e na poesia, posso dizer que o Trovadorismo foi muito importante para a a língua portuguesa, pois a fez mais valorizada e mais rica. As cantigas de amor e de amigo, como as de escárnio e maldizer permanecem vivas, com outra roupagem, claro. Mas, voltando ao séculos XV e XVI, é importante lembrar de Fernão Lopes, que criou, por volta do ano de 1418, um novo português, e de Luiz Vaz de Camões, que é o verdadeiro fundador da nova língua Portuguesa, tendo como base o galego. Ambos inovaram e nos deixaram como legado a língua e a poesia que temos hoje. Já o amálgama amor e ódio, tema do meu livro de poemas lançado em 1991, não traz nenhum mistério, apenas a constatação de que os extremos se tocam e tudo é dual.


Klaudia Alvarez - Aíla, os grandes autores da literatura cearense são bem conhecidos, mas eu gostaria que você falasse um pouco da nova geração de escritores. Quais você destacaria?


Aíla - Há muitos nomes produzindo literatura de qualidade no Ceará, posso destacar o Francisco Carvalho, o Floriano Martins, o Dimas Macedo, o Nilto Maciel, a Lourdinha Leite Barbosa, o Batista de Lima, a Regine Limaverde; há também um pessoal mais novo que está já 'escrevendo' seu nome nas nossas letras, como a Tércia Montenegro, o Raimundo Neto, o Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro,a Carmélia Aragão e o Urik Paiva. Citar nomes é sempre complicado, porque a agente acaba lembrando apenas dos que estão mais próximos ou em evidência, mas posso afirmar que a literatura cearense está em plena efervescência, com diversidades de soluções formais e preocupações estéticas as mais variadas tal como a que se produz, no mundo inteiro, hoje, quando que a palavra de ordem é 'ecletismo'


Razek Seravhat - Desesperadamente Nua é um livro onde a alegria e o desespero se juntam para a contemplação e a efetivação dos anseios de uma mulher rara em sua maneira de ser e de agir, numa agressão que é de posse, mas também de carinho. E muito. Poucos livros terão alcançado em objetivo tão rico em nossa poemática. ( José Alcides Pinto) Qual o objetivo do Poetar? Por acaso seria o de amar? Mesmo “numa época em que o amor é estranho ao próprio amor” ?


Aíla - Fazer poesia é uma forma de transcender a 'partos complicados' e sobreviver aos meus próprios enigmas... digo isso em um poema que reflete o meu processo criador. O amor é a vertente, é ele que me move, me impulsiona, me faz acordar todos os dias e caminhar. Mesmo, eu diria sobretudo, como falou o saudoso Alcides, “numa época em que o amor é estranho ao próprio amor”. Então, fazer poesia é uma forma de confirmar a minha própria existência...


Jean Maccole – Olá, Aíla Sampaio.


O que diz a poesia
(se diz),
de poesia,
à alma de quem nada ouve?


O que ouve
(se ouve),
de poesia,
a alma de quem nada ouve,
o que diz a poesia?


Ouve algo,
de poesia,
a alma de quem nada ouve,
o que diz a poesia?


Diz algo,
a poesia,
para a alma de quem nada
(de poesia)
ouve?


De que alma estamos a falar:
da alma de quem nada ouve
ou da surdez poética?


De que alma estamos a falar: da
poesia que nada diz
ou da mudez poética?


Há alma em quem,
de poesia,
nada ouve?


Aila - A poesia é um antídoto contra o tédio que insiste em perturbar a humanidade... ela levanta véus, desperta os nossos olhos para outros olhares, descortina mundos, abstrai-nos do palpável e nos dá o que sabemos que existe mas não enxergávamos. As pessoas que não leem poesia, acometidas da 'surdez poética, vivem num modo árido, de emoções pálidas, pois, como nos diz Gullar, ela (a poesia) permanece como uma forma de criar outro mundo “mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado – por cima da realidade imediata”.

Lenitivo - QUEM É Aíla Sampaio?

Aila -

Viagem

Vida: vagão de um trem a qualquer hora
a soltar-se pelos trilhos.
Se fendem as trancas na ferrugem das peças,
nenhuma alavanca detém a carga.
Sigo. Passageira sem estação de rota.
Quando vou, estou indo de volta
como se por mim tudo fosse outra vez
sem ter sido nunca a primeira.
Meu corpo é minha bagagem
arma atenta à cicatriz
que não fecha
e a que se cava
em tua ausência
materializada na cadeira vazia.
Ao meu lado, o passado
sentença do efêmero,
algema sem trancas.
Sigo como um vagão
desgarrado do comboio,
querendo ainda obedecer
ao freio das alavancas.


(Aíla Sampaio - Escritora e Professora da UNIFOR)


Colaboradores
Aurisleide Mourão_Psicóloga e Professora de língua estrangeira.
Klaudia Alvarez – Autora do espaço musicadoceara.blogspot.com
Jean Maccole – Professor da UERN
Razek Seravhat – Poeta da Dor e da Melancolia
Participação Especial: José Alcides Pinto

Fonte: http://lenitivocultural.blogspot.com

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